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– Oi, mãe, tudo bem? E o pai, tá bom? Pois é, liguei para te falar que resolvi ser autor. Ator não, mãe… Autor. Isso, mesmo… Aquele que escreve livros. Bom, eu gosto de ler bastante, né? Então pensei em criar uma história sobre uma menina que se acha feia e se apaixona por um rapaz misterioso. Isso, isso mesmo… Não, mãe, ele não é vampiro não, senão fica igual no Crepúsculo. Ele é um lobisomem mutante filho de um lobo encantado e uma fada do inferno. Isso mesmo… Ele brilha também, mas só quando vira lobo, à noite. A menina? Bem, a menina na verdade é uma sadomasoquista que já deu chicotadas em todos os bonitões da vizinhança, mas ninguém percebe. Ah, ela também é um súcubo. Isso mãe, ela se alimenta através do sexo… Mãe? Mãe?

Essa conversa, apesar de parecer absurda, é mais comum do que pensamos. Vivemos em um país onde muitos autores não estão prontos para o mercado editorial. Mas a quem podemos culpar? A facilidade de publicar uma obra com a febre das editoras sob demanda? A falta de profissionais prontos para atender estes novos autores? Até que ponto este boom na nova literatura nacional é bom para o mercado literário? Pois é, o mercado literário nacional está em transformação. E agora, após muitos percalços, acho que ninguém nos para.

Primeiramente, devemos parabenizar a iniciativa não só dos autores, mas de editoras que se unem para divulgar as obras brasileiras, muitas vezes esquecidas pelos grandes grupos literários. Uns compram os livros dos outros, se divulgam, recomendam os parceiros para amigos e fãs das redes sociais e, com passos de formiguinha, conseguem em pouco tempo o que muitas vezes demora meses para ser feito pelos métodos convencionais.

Mas, infelizmente, as boas obras se perdem pelo excesso de livros lançados. Alguns com péssima revisão; histórias sem pé ou cabeça e muito cruas para serem publicadas. Obras que saem para a prateleira sem um cuidado ou a opinião real de um copidesque ou até mesmo de um editor. Já vi autores sem preocupação nenhuma com a expectativa do mercado, já que o livro acaba sendo mais um presente para os amigos e família do que ao leitor.

Mas acredito que os gestos de heroísmo do autor nacional superam os erros crassos. Chegamos a uma geração disposta a fazer a diferença e está pronta para brigar por isso. Lutar para que todas as editoras tratem as obras brazucas com o mesmo respeito dos chamados best sellers internacionais e que da mesma forma as obras sejam expostas em igual peso e medida nas livrarias por todo o país. Não liga em digitar textos noite afora, nas horas de folga, mesmo que o chamado reconhecimento não chegue. O que deseja apenas é que suas palavras mudem a vida de muitos leitores.  E as suas próprias…

Eu, como autor, já tive o prazer de conhecer uma fã dentro do ônibus. Ela não comprou o meu livro, pegou na biblioteca da cidade… Mas quando vi os seus olhos brilharem ao compartilhar comigo a paixão da história de Arma de Vingança foi como se eu tivesse ganhado na Mega Sena. E isso não tem preço…

Depois da Bienal semana passada, nem se fala. Ver pessoas fazendo fila para te ver, gente que passou horas para entrar na Bienal… Leitores que merecem ser abraçados e curtidos por horas sem parar. E o carinho que recebo nas redes sociais, então? Muitas vezes, quando estou triste, e pensando assim… Porque não fui ser médico ou político? – eis que chega um olá, um comentário, um abraço virtual que alegra o seu dia. Pois é, somos viciados em vocês, nossos leitores!

Ser autor é isso. Não é escrever um livro de qualquer jeito porque gosta de ler. Não é pagar para publicar um livro sem antes escutar a opinião de alguém sobre a obra e saber se sua trama verdadeiramente está pronta. É saber lidar com as críticas, sugestões e opiniões dos outros. E, mais ainda, é ter certeza que quando o livro é publicado não tem como voltar atrás. Bom ou mal, é por ele que seu nome será conhecido. É apoiar outros autores, ser humilde, reconhecer que sem os leitores você não é nada, nadinha, nadinha… É torcer pelas obras alheias como se fossem seus. Afinal, tem leitor para todo mundo, minha gente!

Acho que a Amazon – Santa KDP dos autores nacionais – está aí para ajudar de, uma forma ou de outra, a separar o joio do trigo. Autores como Vanessa Bosso, FML Pepper e Tatiana Mareto provam que quem tem talento é reconhecido. O reconhecimento vem – nunca sem trabalho – mas quando acontece, não tem como parar… Por isso esse novo mercado é tão importante para nós. E, aos poucos, quem é autor mesmo, não só seguindo o calor do momento, vai brilhar. Ao contrário do que muitos pensam, o livro impresso, na minha humilde opinião, não acaba… Gostamos de ter os livros em nossas mãos, cheirá-los, tê-los em nossa estante. Por isso, na atual conjuntura, o KDP é uma vitrine onde as grandes editoras vão encontrar os seus autores, já com bons resultados na mão. Afinal, um autor publicado digitalmente já tem público-alvo, críticas, elogios etc. O próprio público elege os seus ídolos, sem a pressão do mercado que deseja nos mostrar o que faz sucesso internacionalmente. Conseguimos, aos poucos, mostrar o que faz sucesso aqui dentro, entre nossa cultura. Isso é bom demais, minha gente.

Portanto, prepare-se. Pense muito antes de dar esse passo. Porque caso não esteja pronto para ser autor, não tem segunda chance. Autores de uma só obra caem rapidamente no esquecimento. Então, espero que todos revejam cada vez mais as suas posições e, em seus devidos lugares, lutem com a mesma paixão pela literatura nacional, que já exaltou Capitú, Gabriela, Clarissa, Capitão Rodrigo, Chicó e tantos outros personagens inesquecíveis.

One thought on “Pronto, falei: O brasileiro está pronto para ser autor

  1. Anaté Merger

    Oi Danilo, meus parabéns pelo excelente texto. Disse tudo. Sucesso para você e todos os outros colegas que estão transformando o mercado. Acreditar já é a metade do caminho e eu também acredito. Um grande abraço!

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