A primeira vez que senti

A primeira vez em que apenas me apaixonei fui tempestade, furacão, incêndio no peito. Atração exacerbada a explodir da alma, a me arder no corpo, tremendo de ansiedade e vontades não ditas. Prometeu-me mundos, transformou palavras em sonhos, promessas para toda a vida. Cercou meus olhos para que não fugisse por corpos alheios, roubou a minha boca para que não declamasse para outros ouvidos, possuiu minha carne para que ninguém mais ouvisse os meus gemidos. Preencheu a minha vida de tal forma que, ao mergulhar nele, eu me perdi. Tornei-me sombra, eco, deixei de exprimir vontades e passei a replicar seus gestos. Vi-me cego, na escuridão dos braços alheios, prensado, sufocado de tanto amor. Por isso, em um instante iluminado, tentei ver a minha face novamente. E, ao não encontrar-me, rejeitei esse sentimento. Abandonei a paixão que me devorava, e sorvi a vida em uma grande arfada. Voltei a viver.

A primeira vez em que apenas desejei fui cercado pela pele nua, sem vestes ou enfeites. Deparei-me com o vazio dos sentimentos, e o furor da carne que pede para ser violada. Cerquei-me de palavras sujas e devassas, mãos inquietas e línguas curiosas, dispostas a sorver o meu suor e gozo nos lugares mais secretos. Perdi-me em corpos, sussurros, promessas de êxtases que povoaram minha mente por segundos. Explorei meus limites, cedendo às minhas vontades com os mais desconhecidos corpos, nos lugares mais inusitados, nomes e personalidades que se perderam na seara do tempo. Meu coração, este órgão imenso – e cheio de simbolismos que o sexo nunca conseguirá suprir – cada vez mais se encolhia, enrugado e vazio, ausente de sentir. Por isso, antes que ele parasse, afastei-me mais uma vez, e permiti que a vida me preenchesse com seus ruídos, suas pessoas e quereres. E por ansiar por mais que sensações passageiras, o desejo abandonei.

A primeira vez em que amei, descobri que nada era apenas paixão, ou desejo. Tive o fremir do peito, as pernas bambas, e os lábios que me fizeram perder os sentidos. Não me foi prometido joias, bens ou sensações eternas. Simplesmente deitados no chão, em meio a rua vazia, olhamos o céu e prometemos as inconstância das nuvens um ao outro. A totalidade do nada, do talvez, do incerto, da falha… Do aprender, humano e constante, que vivemos dia após dia. O caminhar e tropeçar, o sentir sem prazo determinado, o acompanhar o outro sem se perder.

E ao ver que aquilo que sempre havia buscado, tudo e nada do esperado em um só gesto, tive medo por um instante. Hesitei, em alguns momentos, pensando se aquilo não era paixão ou desejo moldados às minhas vontades. Até colocar a mão no peito e senti-lo inflado, cheio e vitorioso, vibrante e colorido em meio a tantas emoções. Então me entreguei, braços erguidos a receber a vida, com todas suas inconstância e medos, e me atrevi a perder-me no sorriso do outro e nas promessas que faríamos juntos. Sem me importar com o resultado final.

Finalmente, permiti-me ser.

 

 

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