A validade do amor

Desde pequenos, somos cercados pela ideia do amor. Primeiro vem a ideia do “felizes para sempre”, sendo esse o sentimento que rompe todas as adversidades e impulsiona uma pessoa a cumprir os mais absurdos objetivos em função do outro. Crescemos com esse conceito e o alimentamos, procurando em uma busca muitas vezes sem sentido quem será o felizardo a quem dedicaremos todo o nosso sentido, esse carinho acumulado, regado e cuidado com afinco, em processo constante de crescimento dentro do nosso ser.

Ao encontrarmos o nosso alvo, começamos o jogo de sedução. Nessa hora, nós, os seres humanos, estamos em perfeita sintonia com o nosso estado animal. Somos meio que pavões, enfeitados com as melhores roupas, enfeites e bijuterias. Pomposos, murchamos as barrigas, empinamos os peitos e vamos à luta. Os homens engrossam a voz, arqueiam os ombros e se mostram capazes de oferecer toda a segurança que a mulher deseja. Máscaras frágeis de falsos poderes. Por medo ou receio, por defesa velamos o que verdadeiramente somos. A essência, fagulhas de quereres em meio aos sonhos, pedras pontiagudas que insistem em se tocar e se polir umas nas outras.

E esse falso brilhante em que nos transformamos dura?

Nada! Passamos pelo namoro e aquele amor idealizado começa a mudar. Sabe o acelerar do coração e rubor das faces tão bonitinho que você tinha imaginado? Converte-se em ardorosa paixão. Aquela que submete, doma, enlouquece a gente, deixa as pernas bambas e a pele necessitada de toque. É quando surge a fome, a sede, a insaciedade do corpo do outro, a fremente vontade de tê-lo guardado dentro de si para sempre, ao seu comando e a sua vontade. E quando você acha que a vida a dois é uma grande festa. Só que nada dura e isso também passa… Lógico, vivemos em sociedade.

Devemos seguir as regras e padrões vindos de nossos pais e avós. Você deve se casar, juntar os trapos, pensar em ter filhos (ou quem sabe um casal de gatos) e esperar que aquela força intensa que antes julgava ser o verdadeiro amor arrefeça, fique morno, tranquilo, espalhando-se, diluindo, amainando o tempero picante de antes. Aí começam a surgir as dúvidas, as incertezas impostas pelos anos da cumplicidade a dois: acabou o amor? Que dores de cabeça são essas? Porque ele demora tanto a chegar? Será que ela só ama nossos filhos? Esse cara não sai do computador… A primordial questão é: nos acomodamos tanto em viver ao lado do outro no decorrer dos dias, meses e anos? Onde está aquilo que sempre imaginei que viveria?

O amor realizado está aí, presente, ao seu lado. Esqueça o que idealizamos. O que não sabemos é que o amor verdadeiro sempre esteve por perto. Ele só mudou, assim como nós.

Constantemente. Frequentemente. Cresceu, amadureceu, se alojou dentro de você e aparece refletido em cada vez que você se olha no espelho e acha que está vendo a melhor mulher do mundo. Quando ele veste aquela roupa e se acha um gato. Porque o amor real também se reflete no outro, sabia? Não nos gestos arrebatadores, mas nos simples, aqueles que são especiais em meio a rotina e que muitas vezes não vemos. Ou fingimos não vê-lo.

Quando sorrimos de maneira desarmada diante das palhaçadas dele ou quando ele pega na mão dela e parece que tudo finalmente se encaixa. O beijo que se encaixa, olhar e já saber o que o outro quer dizer. Ou quando não acontece nada disso e quem você ama nunca perde o ar de mistério. A gente aprende a amar todo dia: quando briga, volta, some e depois se reencontra… Ama ainda quando se separa, já que um pedaço do nosso coração segue com o outro, eternizado nas experiências do que tiveram juntos. O amor nem sempre é a dois, a três, a dez. É possível amar o Estádio do Maracanã inteiro! Pois nas muitas faces do amor o sentir é que importa. E ele pode acontecer com um ou um milhão de pessoas ao mesmo tempo.

Basta se permitir e não regra-lo. Não tente criar fórmulas exatas ou resultados esperados. Se em algum momento achar que acabou a validade, não é que tenha realmente acontecido. Basta olhar com novos olhos e ver no que se transformou.

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