A vida é um espetáculo!

Em todos os lugares por onde o espetáculo da Vida passava, as reações eram as mesmas. Antes mesmo que o primeiro carro aportasse no começo da rua, chamando as pessoas para o evento, estas eram tomadas por um sutil arrepio, o frêmito por algo que não conseguiam discernir completamente. Depois o coração acelerava-se e a boca secava, deixando que mente se enchesse das mais doces expectativas… Quando saíam da escuridão de suas casas e presenciavam a Vida passar diante deles, em toda a sua beleza, sorriam, ansiando em fazer parte daquele mundo de luz, cores e sensações indescritíveis, como só quem já participou poderia descrever. Afinal, quem não quer fazer parte da Vida, em vez de só vê-la passar diante dos olhos?

Em pouco tempo, a multidão assomava às ruas, seguindo o cortejo, embevecidos diante das promessas que o espetáculo da Vida lhes proporcionaria. Ávidos perante a lona que se ergueria, como uma nuvem vaporosa, convidando-os a experimentar algo que não sabiam definir em palavras.

E quando a bilheteria se abria, em pouco tempo não cabia mais viva alma sob a lona salpicada de estrelas multicores. Assim que os primeiros acordes da Inspiração soavam no ar e o Silêncio corria entre as cadeiras, o espetáculo da Vida se iniciava. Como não vibrar com a força do domador Valentia, diante dos nossos medos e inseguranças? Ou encher-se de desejo com a sensualidade de Paixão, ao dançar em torno do palco, prometendo sensações que nunca seriam ditas em voz alta? Ou escutar as mágicas previsões de Sabedoria, auxiliada pelo Tempo?

Mas a grande estrela da noite era Sonho e seus movimentos no trapézio. Linda, bela, vaporosa, corpo lânguido se movimentando no ar e fazendo os mais emocionais verterem lágrimas de encantamento. Seu corpo parecia flutuar de um lado para o outro, sem pressa, sem movimentos bruscos, seu rosto parecido com porcelana, capaz de tornar cativo o mais cético e insensível dos homens. Como dizem, o que seria das pessoas sem conhecer seu Sonho? Por isso, muitos queriam casar-se com ela, roubá-la para si, prendê-la… Após o término do espetáculo, flores enchiam o seu camarim, gente dos mais diferentes tipos a enchia de presentes e prometia coisas que poderiam existir somente no mundo de Sonho. Mas ela, sorrindo, dizia com sua voz cristalina.

– Não é disso que preciso… O que desejo, nenhum de vocês pode me dar.

Assim, entre recusas e encantos, o espetáculo seguia seu curso, deixando em seu caminho as pessoas tocadas pela Vida e sua magnitude.

Mas e nós, ficamos por aqui mesmo? Não! Em vez de esperarmos pela próxima parada, pegaremos uma carona com a trupe, perseguindo a bela Sonho. Onde ela se encontra? Será que alguém conseguiria alcançá-la um dia, no alto de seu picadeiro?

Para descobrir essa resposta, percorreremos os carros que levam o espetáculo de cidade em cidade, para pararmos ao lado de alguém que só de pensar em sonhar, o coração acelera. É o menos desprovido de atributos no espetáculo, mas talvez o mais apaixonado. Sabe de quem falo? É de Emoção, o impulsivo palhaço da Vida. Aquele que cerca de encantamento os espectadores com seus sorrisos, e faz explodir os sentimentos dentro dos corações… O jovem que depois, quando as luzes se apagam e o show se esvanece, fica muitas vezes esquecido no canto… Pois todos temem expor aos outros a sua verdadeira Emoção. Para muitos, sentir algo é um sinal de fraqueza.

Pois é, o coitado ficava ali, noite após noite, maravilhado diante da etérea Sonho. Testemunhava as cabeças voltadas para o alto, os presentes, as propostas e as frequentes recusas dela diante do populacho. Só que, ao contrário de muitos, se solidarizava com a bela mulher que ao final de tudo permanecia sozinha, esperando que alguém lhe desse a resposta correta aos seus apelos… Porque a bela Sonho também tinha os seus sonhos. E eles não a deixavam. Ao contrário dos homens que a visitavam, após cada espetáculo. Para eles, sonhos não alcançados são facilmente esquecidos.

Até que um dia, todos que tornavam a Vida o mais belo espetáculo resolveram reunir aqueles dois corações tão solitários, mas complementares. Valentia uniu-se a Sedução e tocaram o pobre Emoção com palavras de incentivo e paixão. Juntaram-se a turma a Alegria e o Otimismo, que trabalhavam junto com o palhaço e sabiam de seus sentimentos. Lógico que as Lágrimas com seus malabares deram sua contribuição. O que seria de Emoção se não chorasse de vez em quando? Assim, todos que tornam a Vida tão completa compartilharam com ele um pouco de si, deixando-o mais forte. Antes que o espetáculo daquela noite findasse, Sabedoria lhe deu um último abraço, a Esperança beijou-lhe a face em meio as suas mágicas, empurrando o pobre em direção ao palco, para que fosse guiado pelos seus anseios.

Enquanto Sonho bailava no ar, Emoção, munido de tantos argumentos e incentivos, resolveu declarar aquilo que lhe aferroava ao peito. Agora sabia que deveria perseguir seu Sonho, em vez de só vê-la e desejá-la ao longe, como fazia a maioria. Por isso, sem hesitar, subiu as escadas do picadeiro, indiferente aos gemidos e gritos de espanto da plateia. Chegou por fim ao trapézio e as cordas bambas, deparando-se com a bela jovem, deixando que ela percebesse como a queria.

Sonho pousou do outro lado, o ar sem palavras a dividi-los. Sonho e Emoção se fitaram, descobrindo finalmente o indescritível reconhecimento de pertencer ao outro. Foi neste instante que Sonho, com sua voz cristalina, perguntou, um pouco trêmula.

– O que você pode me dar?

Emoção, o por muitos considerado o tolo, sorriu. Já não era mais o mesmo, pois havia permitido que tudo que havia de bom – e ruim – na Vida lhe ensinassem algo. Então, declarou-se:

– Você me ensina a viver com a cabeça nas nuvens, que eu lhe ensino a andar com os pés no chão…

Foi nesse instante que Sonho sorriu, e tudo pareceu iluminar-se, como se a Vida estivesse em festa.

– Sim – ela disse, e juntos, fecharam os olhos e saltaram, encontrando-se no ar em um beijo cheio de sentidos e afetos acumulados. Caíram como plumas, em uma dança nova e louca, em direção a rede do picadeiro. Ao alcançar o solo, perderam-se em um clarão que nunca viu-se igual no espetáculo da Vida. E quando, diante de olhos espantados, ressurgiram, não dois, mas três… Além da delgada Sonho e do sorridente Emoção, um novo integrante se unia ao espetáculo. Era o Amor, puro e menino, com seu riso solto e palavras muitas vezes tolas, mas capaz de tocar a quem comparecia ao espetáculo como  Sonho ou Emoção, sozinhos, nunca seriam capazes de fazer. O Amor, para ser certo, não pode habitar somente as nuvens, ou a racionalidade do chão. Deve nos dar os dois, cada um a seu tempo. E entre a vastidão que o céu e a terra comportam, se observar com cuidado, verá nuances de Valentia, de Sedução, de Esperança, de Sabedoria, ou até mesmo das Lágrimas que se derramarão sem querer…

Foi assim que o Amor um dia ingressou no Espetáculo da Vida. E hoje, até o final dos dias, será um dos seus mais importantes integrantes. Se não acredita, venha conhecer o show… Ele está aí, ao seu alcance, quando você assim desejar. Duvido que se mantenha indiferente quando Sonho e Emoção entrarem em cena, juntos, para lhe mostrar o Amor em toda a sua plenitude.

Aventure-se, conheça-o, e depois me conte o que achou.

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