As palavras que nunca te direi

ELE: Eu não te amo… Quer dizer, acho que, na verdade, eu nunca te amei. Pelo menos não como você sonhou. Acho que ambos nos enganamos quanto a isso. Sei que deveria tê-la prevenido desde a primeira vez em que te vi, mas também me iludia, achando que você era a mulher que eu havia imaginado. Mas a quem queremos enganar?! Também estou longe de ser o seu príncipe encantado, o protagonista perfeito daquele seu romance predileto, aquele que está amassado, jogado no seu canto da cama, cheio das marcas que tantas vezes você folheou. Para ser sincero, nunca fui nada daquilo que você imaginou. Como podemos nos iludir de tal forma? Achou mesmo, em algum momento, que eu poderia protegê-la e confortá-la?

ELA: Tenho algo para desabafar: cada vez mais ando pensando se em algum momento eu te amei. Porque me casei com você? Desejava tanto provar aos outros, e a mim mesma, que poderia ser feliz? À procura da liberdade, me afundei de vez nas convenções? Olho para essa sua cara amarrotada, o cabelo em desalinho, a baba umedecendo o canto da boca e me pego a pensar: será que estava bêbada quando te escolhi? Ou estava tão tomada pela vontade de ser feliz que coloquei nesse relacionamento expectativas suficientes por nós dois? Onde vi em seu rosto o homem que eu sempre imaginara? Onde estão os gestos dóceis, a gentileza e as palavras bonitas que eu não cansava de ouvir? Será que existiram? Em que parte do passado aquele homem que eu pensava sentir algo ficou perdido?

ELE: Quer saber a verdade? Fiquei tanto tempo sendo o que você queria que me cansei de prometer coisas que não poderei cumprir, só para ver a satisfação em seu rosto. Concordar diante de ideias que acho absurdas, perder horas em coisas tolas como a cor de um sapato ou sobre qual esmalte escolher. Rezo para, por um momento, não lidar com suas crises de mau humor e insegurança. Peço todos os dias por minutos de silêncio em meio as suas queixas e necessidades incessantes. Não sou o forte dessa relação. Sinto dor, medos, anseios e dúvidas. Sofro em silêncio quando algo não dá certo e, em vez de me perguntar o que me faz mal, você me recebe com implicâncias sobre a tampa da privada que ficou levantada… Que vá para o inferno a tampa da privada! Quero saber onde foi que eu me esqueci de mim… Na verdade, em qual momento nos esquecemos daquilo que verdadeiramente sonhávamos ser, para simplesmente ser o que o outro deseja… Preciso me libertar – e libertar você.

ELA: Quando te conheci, a vida parecia tão diferente… Cheia de promessas, expectativas, desejando sentimentos que durariam para sempre. Em seus olhos e gestos eu via as mesmas vontades e esperanças. Era como se você fosse o meu espelho, refletindo as vontades do meu coração… Por isso não canso de me perguntar: será que os nossos desejos mudaram? Ou finalmente nos despimos daquela esperança infantil de que podemos ser felizes para sempre? O amor que idealizamos é quando nos agarramos ao outro, ou quando deixamos ele caminhar sozinho, deixando que ele se preencha com suas buscas e conhecimentos? A pessoa amada deve ceder as nossas vontades ou ser admirado exatamente por ser diferente?

ELE: Independente de quem somos, acho que ansiamos pelo amor de cinema. Aquele encontro com um toque romântico-pornô, onde os dois se desejam e não se desgrudam, corpos desnudos, juras de amor em meio a palavras devassas… Mas aos poucos, na comodidade, na rotina, descobrimos que esse amor apaixonado e romântico, assim como todos os outros, não existe. O que entendemos por amor é desejo, a vontade louca e egoísta de ter alguma coisa que não conseguimos definir, a fome e o anseio de algo que não está ao nosso alcance. Eu te desejei. E quando, por fim, eu consegui, você não era aquela que imaginei.

ELA: Cada vez mais eu tenho a certeza de que não me apaixonei por você, mas pela ideia de você que eu criei em mim. Acho que agora, ao te ver assim, me fitando como um tolo, tenho a mais absoluta noção que o amor dos livros não existe. Este sentimento voluptuoso pertence aos livros e aos versos dos poetas, onde é o lugar dele. Vivemos com alguém para ver a admiração por nós em seus olhos. Dizemos que amamos para ouvir te amo de volta. Esperamos ter o calor de uma pessoa ao nosso lado com medo de que a vida, feita por apenas um indivíduo, seja solitária demais… Se eu me ver livre de você agora, serei capaz de começar de novo essa dança tresloucada em busca de um par? Ou aguentarei o peso da solidão?

ELE: Mas porque eu fico com você? Porque bem ou mal, você não me deixa sumir… Ao seu lado eu não me desintegro, massacrado pela rotina dos dias. Mesmo em suas críticas eu sei que não serei esquecido. Mesmo quando eu me for e você tiver preterido todas as mazelas que foi nosso casamento. Mesmo quando você se for e em nossos filhos ainda resistirem os meus traços… Enquanto alguém se lembrar de mim, estarei vivo. E meu fim não será sozinho, fitando paredes nuas e vivendo das lembranças de que um dia tive alguém.

ELA: Viver sem alguém…
ELE: É viver sozinho.

Foi nesse momento que os dois finalmente se olharam, como se dois completos desconhecidos se fitassem pela primeira vez. E diante de seus medos e incertezas, calaram os seus pensamentos, e todas as palavras que nunca seriam ditas.
Deitados na cama, esboçaram um singelo sorriso, quase automático, cercado de medo e insegurança. Como se fosse a primeira vez, por fim disseram, em uníssono:
– Eu te amo.
O sorriso expandiu, abriu-se como rosa em flor. Encostaram-se e deram um beijo caloroso, dois corações tentando encontrar o mesmo ritmo; duas almas tentando se encontrar em meio ao murmúrio dos dias. Por fim, viraram-se, cada um em seu respectivo lado da cama, esperando que o sono os tocasse, e transformasse em realidade tudo aquilo que eles desejariam a vida toda.

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