Colorir

– Pai, eu também quelo pintá! Dá um daqueles pla mim?

Ao ver para o lugar que sua filha apontava os dedinhos, o coração do pobre homem apertou-se. Ele, que sempre tinha as melhores explicações e histórias para contar à sua pequena, estava pela primeira vez sem palavras. Afinal, como falaria a ela que nunca teria dinheiro para dar-lhe um dos livros de colorir que estampava as vitrines onde passavam? Aqueles que, naquele mesmo instante, alguns jovens pintavam, reunidos em uma mesa da praça? Como desabafar à sua inocente menina que, se trouxesse um daqueles livros e seus lápis coloridos para o barraco em que viviam, junto viria a fome para importuná-los por toda a noite?

Por isso, na mesma hora tentou fugir do assunto, virando o seu rosto para outros lados, apontando para direções em que pessoas não estivessem a colorir o branco das folhas, criando novos mundo encantados com seus acessórios de marcas impronunciáveis. Objetos que ele não tivera, e que nem poderia dar a sua pequena filha um dia. Como teria coragem de ensiná-la que, às vezes, as coisas lhe seriam negadas? Que no mundo de quem é pobre o colorido da vida é um quase cinza?

Pensou em distraí-la, fazer com que seus pequenos olhos que tão pouco sabiam do mundo se perdessem, talvez, em outros devaneios infantis. Mas sua cabecinha logo se voltava para a mesma cena, a boca trêmula, os dedos na mesma direção sem hesitar.

– Pai, poquê num posso pintá? Também quelo.

Quais palavras poderiam atenuar a vontade de uma criança? Ele nada disse, somente a puxou em direção ao lotação, indiferente as suas lágrimas e pedidos insistentes. Mesmo quando ela quis fugir dele, parar, impor sua limitada vontade, ele não se demoveu em tirá-la dali, com o peito em frangalhos. Entrou no ônibus que os levaria ao pé do morro, de cabeça baixa, como se a situação envergonhasse os demais presentes. O homem, que sempre se sentira orgulhoso, por ter um trabalho honrado recolhendo a sujeira dos ricos pela cidade no caminhão basculante, pela primeira vez se lamentava de sua situação: a do pai que não podia realizar desejos.

A pequena chorou até cansar e, por fim, adormeceu em seu colo, o rostinho de anjo marcado pelos dois traços da dor. De coração partido, ele velou o seu sono, já que era a única coisa que poderia fazer, e subiu as longas escadarias com aquela que já havia sido seu bebê nos braços, ninando-a como fez um dia. Chegando, colocou-a no colchãozinho fino, alojado em um canto do barraco e chorou, abraçado com sua esposa. Ela e suas mãos calejadas de lavar roupa para fora. Ele, a herança da desilusão que deixava para aqueles que mais amava.

– Eu sonhei tanto em dia dá uma vida boa pra nós, muié… – Ele se lamentava, com a voz embargada.

– E quem disse que as coisas num se realiza? Podi nem sê como a gente imagina, mas faz o possíve. O que sobra pra nóis tentá realizá, a não ser o sonho, homi? E mesmo quando não dá certo, a gente num deixa di sonhá… Só sonha mais baixinho.

Ela o beijou e foi ver a menina, deixando-o a pensar no que havia dito. Ele nada mais comentou, perdido em pensamentos, o coração quebrado cada vez que pensava no choro decepcionado de sua pequena.

Durante a noite, a favela se silenciou, entre mentes diluídas pelo sono ou atentas pelo medo, tanto faz. O importante era que, nas escadas e ruelas quase não se via viva alma. Menos naquele barraco, onde uma criança poucas horas antes chegara dormindo de tanto chorar. Lá havia alguém disposto a realizar os sonhos da pessoa que mais amava no mundo, com aquilo que coubesse em suas mãos. Uma ideia surgia, um gesto que poderia no final ser apenas um arremedo de realidade, algo ínfimo perto do que desejava para a luz do seu coração. Mas, naquele momento, era o tudo o que poderia lhe dar.

E isso não tinha preço.

Dias depois, quando a menina voltou para o lugar que conhecia como casa e adentrou a porta, encantou-se. As paredes, aquelas que mal se mantinham de pé, tinham panos presos, das mais diferentes cores e texturas. Por todos os lugares, desenhos brotavam pelos tecidos. Novos mundos por todos os lados, esperando que a menina os colorisse. E, encima da mesa, pedaços variados de giz de cera e lápis de cor dos mais diferentes tamanhos a esperavam. Alguns míseros toquinhos, outros quase novos, prontos para que ela criasse a sua própria versão da vida.

Quando o homem chegou, no final da noite, ouviu a risada de sua filha antes mesmo que adentrasse a porta. E assim que a viu, acompanhou o seu sorriso. Quando seus olhos se cruzaram, ela o abraçou e no seu jeito simples, gritou:

Obligado, papai. Te amo.

– Eu também te amo, minha pequena Esperança – disse, ao abraçar sua pequena luz, aquela cujo nome era de um sentimento que muitas vezes esquecia. Vendo-a pintar as paredes e as suas camisetas, que pregara por todo o barraco enquanto ela estava na creche, e com os lápis e gizes que procurara arduamente entre os entulhos do lixão em todo final de turno, via que às vezes não precisávamos mudar o mundo para que as pessoas pudessem continuar sonhando.

Aproveite a inspiração vinda de um pai e faça o mesmo. Transforme como sua meta de hoje colorir o mundo, à sua maneira. Como pode ver não precisará de muito. Só basta um pouco de esforço. E amor, muito amor, para mantermos a alegria de sonhar eternamente viva dentro de nós.

2 thoughts on “Colorir

Deixe uma resposta