Declaração de amor real

Eu não prometo te amar para sempre.

Não posso oferecer algo que perdure e ecoe pela eternidade, além das minhas inconstâncias e desejos. Dar força as palavras e afirmar que elas perdurarão pelo infinito é prepotência demais, que deixo ao cargo dos loucos ou dos políticos, já que ambos dizem coisas que nunca conseguirão cumprir.

Eu não prometo te amar sempre.

Como posso falar isso se nem seremos os mesmos no decorrer de nossa existência? Todos os dias que acordarmos lado a lado nos depararemos com uma pessoa nova, alguém que o tempo moldou a existência durante o sono. Aqueles que se sentiram atraídos na primeira troca de olhares não são os mesmos que se fitam agora. Nem os do primeiro beijo, da primeira transa ou daquele primeiro desentendimento. Não vou levar ao altar a pessoa que me apaixonei, ou esta pessoa não dirá sim àquele que eu fui, instantes atrás. Todos os dias nos deparamos com estranhos, que conhecemos e perdemos a cada piscar. Quando construímos um relacionamento, o fazemos à base de lembranças e instantes vivenciados, quiçá um tanto de desejos construídos que se mesclam à estes pensamentos, delineando em nós alguém mítico e imaginário, com quem desejamos viver até o último suspiro. Alguém nem sempre real. Portanto, em toda minha realidade, digo que te amei ontem, te amo agora e depois… Quem sabe?

Eu não prometo te amar.

Há dias em que te amarei sem pudor ou vergonha. Te olharei em êxtase, e minha voz irá murmurar apenas elogios e suspiros diante da tua face. Serei o romântico dos poetas, que entregará o coração em tuas mãos e permitirá que o utilize como malabares em um circo. Despirei seu corpo junto ao meu e te possuirei lentamente, entre arquejos e palavras proibidas. Também me entregarei e deixarei que me devore a tal ponto que eu, submisso e ardendo de paixão e desejo, grite “Eu te amo” com a voz da minha alma.

Mas não serei sempre assim. Outros dias não desejarei olhar a tua face, querendo apenas um momento de silêncio, um segundo para ainda lembrar-me de quem eu sou. Em certas ocasiões irei te odiar, por me fazer sentir ciúmes, por discutirmos, por magoar-me com palavras que para você não possam ter nenhuma importância. Desejarei destruir as coisas que preza, estapear sua face e gritar qualquer impropério que atinja sua alma. E depois, deixar que a culpa me domine, e me julgar algoz, e tornar-me vítima, e mostrar-me manso para o seu bel prazer.

Mas não posso omitir que haverá instantes que verei a nós dois somente como corpos, tomados pelas paixão, ansiosos pela cópula. Deixarei qualquer sentimento de lado e rasgarei suas roupas, lamberei seu suor, beijarei sua carne trêmula e lhe direi as coisas mais sujas e degradantes. Não pedirei licença e invadirei o seu corpo, ocuparei espaço e te prenderei até que me sinta saciado. Não importa quantas vezes sentirei fome… Você me pertencerá.

Eu não prometo.

Ser constante ou passivo, sem brigar pelas minhas vontades. Omitir minhas opiniões, mesmo que não goste. Que enquanto estiver comigo, irei ficar para trás ou passos adiantes, para que siga o que seu caminho de forma solitária. Não dar crises homéricas por coisas bobas ou sem sentido. Agir como um louco desvairado em rompantes inesperados, ou como uma criança boba e te chamar de nomes bobos. Te fazer cócegas mesmo quando tiver 90 anos. Fingir o que não só para te agradar. Esquecer a tampa do vaso aberta, ou utilizar sua escova de dentes achando que é a minha. Beijar-te com mau hálito ou com gosto de cerveja entre os lábios. Em instantes de crise, imaginar como seria a vida sem você. Desejar outra pessoa e me controlar para não fazer merda. Apaixonar-me por você várias vezes ao dia. Odiar você várias vezes ao dia. Ver o seu corpo nu e não sentir desejo. Lamber o seu pescoço daquele jeito que você não gosta. Chorar e rir das coisas mais comuns. Te fazer sentir orgulho ou vergonha de mim, certas vezes. Desejar que você estivesse ao meu lado nos instantes mais corriqueiros.  Ser eu mesmo em toda a minha essência. Deixar de ser humano para ser o seu sonho.

Eu.

2 thoughts on “Declaração de amor real

  1. FML Pepper

    Lindíssimo, Danilo!
    Senti-me em um mergulho imperfeito e belo, dentro de mim mesma, sem máscaras.
    Você realmente se superou nesta crônica e eu o aplaudo de pé.
    Beijos,
    Pepper

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