(Des)Caminhos

Após percorrer um longo caminho, os pés hesitaram, a velocidade do andar oscilou e pela primeira vez viram que não estavam no mesmo ritmo. Passaram tanto tempo lado a lado, acostumados a companhia um do outro, que a mais breve oscilação fez o mundo inteiro tremer.

Por isso, pararam. Finalmente. Frente à frente. Como há anos não faziam.

Ao encararem-se, a surpresa assombrou as faces. Olhos nos olhos, em interrogação, os rostos buscavam compreender quem era a nova pessoa que se encontrava à sua frente. Havia traços que lembravam àqueles que escolheram compartilhar o caminho do amor. Mas, ao mesmo tempo, eram tão diferentes… Vestidos por novos trajes, conhecimentos, cobertos de adjetivos e experiências que antes não tinham.

Onde estavam aqueles por quem se apaixonaram? Como poderiam reconhecer-se no outro, se o que idealizaram já não existia mais? Seriam estes os mesmos que, lá atrás, começaram a construir a estrada do relacionamento?

Assustados, permitiram que os olhos descessem até o chão. E, horrorizados, ambos viram que a bela estrada que planejaram fazer estava uma confusão. Os padrões eram visíveis, cada um com o seu… Mosaicos que não se encaixavam, cores que destoavam, curvas onde deveriam ter retas, figuras que não eram terminadas. Os sonhos e desejos espalhados pelo caminho acabaram se tornando figuras abstratas, onde os ideais não se completavam.

A realidade caiu, por fim, enchendo-os de contemplação e silêncio. Constataram que passaram muito tempo construindo um viver a dois baseado nos sonhos de apenas um… Criaram suas próprias versões de finais felizes e, diante de cada crise iminente, tentaram restaurar as emoções às próprias maneiras, destruindo, sem perceber, aquilo que seus corações tão puramente ansiaram.

Com isso, ambos mudaram, amadureceram, tornaram-se novas pessoas… Esqueceram de se olhar, para tristeza de ambos… Não com a carne, mas com a alma…

Por isso choraram, corações enlutados pelo relacionamento que não mais existia, que havia minguado sem que houvessem percebido. Transformaram suas sinfonias em réquiem, permitindo que a tristeza os devassasse. Abraçaram-se, consolaram-se, para estarem prontos a consolar o outro.

Estenderam as mãos, permitindo que os dedos se tocassem. Com um suspiro, viram que a pele ainda se reconhecia, a suavidade dos dedos, a penugem que as recobria. Permitiram que os olhares voltassem a se cruzar. Primeiro com hesitação, e depois, com a certeza de que, se quisessem, poderiam começar uma nova história, de uma forma que fosse certa.

Apoiaram-se para se levantar. Enxugaram as lágrimas um do outro e começaram a contar os seus medos mais profundos e desejos mais absurdos. Despiram-se, amontoando anseios, dores, conhecimentos e esperanças. Arrancaram suas peles e se mostraram em carne viva, como nunca haviam se mostrado. Juntos, em sincronia, mas com dor, pois o crescimento dói, arrancaram seus corações do peito e os torceram encima daquela montanha de vivências que tinham acumulado, sozinhos. Destes escorreram risadas, beijos, abraços, gemidos e “eu te amos”, que derramaram-se por todos os lados, encharcando as vaidades, as paixões, os desejos e anseios que jaziam ali, depostos e dispostos pelos seus antigos donos.

Do líquido fez-se brasa, que a tudo incendiou, convertendo em cinzas tudo aquilo que ambos haviam construído. Sem hesitar, uniram-se sobre a intensa combustão de vida que geraram ao despojarem-se de tudo aquilo que eram. Entregaram-se aos beijos, as carícias e ao sexo, sem pudor, pois agora reconheciam-se como finalmente eram, sem máscaras ou freios. Permitiram que a chama divinal os cauterizasse e decidiram recomeçar, fênix renascida em meio ao caos, mente vazia de hesitações e ansiedades, o simples contato, face a face, sorriso a sorriso, até que as chamas se esgotassem.

Ao sobrar cinzas, eram novos, porém antigos. A quatro mãos, encheram as pernas, o corpo e suas mais suaves reentrâncias com os restos daquilo que havia queimado. Algo que parecia ser o fim tornou-se novo. O que seria morto fez-se nascimento quando deram o primeiro passo, e começaram a traçar um novo caminho com o pó daquilo que havia restado. Poderia não ser tão belo, tão original ou como o idealizado, mas seria duradouro em sua simplicidade.

Por isso, teria todas as chances de ser eterno.

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