Despedida

Não acredito mais em suas palavras de amor.
Desdenho dos seus gestos teatrais e da maneira que procura arrepiar minha pele. Fujo dos atos que fingem me proteger, mas insistem em me transformar uma parte sua, aprisionar-me em seu mundo.
Não preciso de seu alento para sanar a minha dor.
Não preciso do seu afeto para preencher o meu peito.
Não quero os seus pés para andar os meus passos.
Deixei que você me tomasse por inteiro, é verdade, pensando erroneamente que precisaria de sua presença para que isso tudo passasse logo, tampasse definitivamente esse buraco que surgira em meu peito, à espera de expectativas que nunca seriam cumpridas. Fui embalado por suas palavras de comodismo enquanto minha alma se alongava, crescia, partia-se para amadurecer em silêncio. Ouvia o seu canto para me entorpecer da dor de perder, do fitar os espaços vazios, as paredes nuas, a nulidade. Abafar a força do grito que poderia me consumir com o seu volume.
Mas é chegado o tempo de te deixar… E permitir, enfim, que eu te deixe.
Eu não quero mais precisar de você.
Preciso que olhe o meu reflexo no espelho sob novas perspectivas, que os contatos se estreitem além do reflexo do computador – ou até mesmo do celular – nas várias noites insones. Desejo que meu corpo seja tocado por mãos que não sejam as suas, e que bocas e línguas, até então desconhecidas, descubra o gosto da minha pele suada. Que outros ouçam os meus gemidos, sem ser o eco de seu querer.
Eis que desejo a voltar a sorrir sem motivo, gargalhar quando me der vontade, beijar sob a chuva ou andar de mãos dadas sob o sol. Estou pronto, sim, a amar de novo. Não por que preciso de alguém, mas que há amor tão e tanto, suficiente em mim, que possa ser refletido no outro… Assim como o dele irá se espelhar em mim.
Passei tempo demais com as asas encolhidas, a fim de me proteger. Deixe que eu as erga e o sol seque toda a umidade das lágrimas vertidas por sua causa. Deixe-me voar! Permita que eu construa o meu próprio significado de felicidade, a cada minúsculo gesto desta maravilha que é viver.
Eu quero banir de mim o drama, a autocomiseração, a impressão falsa – e muitas vezes tola – de que não conseguirei viver só. Bobo é o poeta que diz que ser impossível viver a plenitude na solitude. Afinal, podemos nos sentir solitários em uma multidão… E mesmo ao lado da pessoa destinada a nós, vivemos a nossa dor, o nosso amor, o nosso gozo. Cada um tem a sua parcela, suas experiências pessoais e lida com a vida ao seu modo.
Deixe então, que eu tenha minhas próprias opiniões. E que as decisões, boas ou ruins, venham de meu coração e de mais lugar nenhum. Que derrube, de uma vez por todas, os véus que me ligam a você.
Me despeço, despindo-me de ti, Ilusão. Sei que é triste para você, que fica, acaba esquecida, mas espero que nunca mais volte. A vida real me espera, e ela é muito mais colorida e cheia de expectativas sem você.
Passar bem, sempre. Espero, sinceramente que não nos encontremos novamente.

Um abraço daquele que nunca foi seu.

 

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