Divagações sobre o pai

Pensei em escrever algo para o Dia dos Pais e permaneci certo tempo em frente ao computador, tela em branco e os dedos inertes sobre o teclado, indagando-me de que forma falar sobre esta data. Poderia falar sobre o meu pai… Tudo bem, sem problemas. Afinal, como seria capaz de falar sobre pais alheios se não passei mais de 30 anos da minha vida ao lado deles? Até aí tudo certo… Mas como começaria um texto? Com um adjetivo que o definisse, talvez? Mas qual seria?

Assim, na busca de inspiração, corri os olhos pelas redes sociais e, infelizmente, a palavra que mais vi – para o meu desespero criativo foi o famigerado HERÓI.

Oi? É isso mesmo, produção?

Os românticos e amigos da área publicitária que me desculpem, mas nunca vi meu pai como um herói. Na verdade, se me pedissem agora mesmo para criar um cartão, um anúncio ou um post para as redes sociais para o Dia dos Pais, acho que este adjetivo estaria fora do meu vocabulário.

Meu pai, para o filho-teste que eu fui – isso é o que dá ser o primeiro da prole – foi um mundaréu de coisas, que não sei se em um texto como o de hoje consigo explicar. O cara que pegava a fralda suja com a ponta dos dedos para jogar fora, como se ali estivesse contido todo o lixo tóxico do mundo (palavras da minha mãe); o grandão orgulhoso que punha o bebê – depois do banho, é claro – em um dos braços e ia exibi-lo aos amigos do bar; ou àquele que sentiu pela primeira vez o coração se apertar quando sofremos um acidente de carro e ficamos os três – eu, ele e a minha mãe – oscilando a tênue linha entre a vida e a morte. Mas o que também proferiu palavras duras, capazes de partir meu coração.

Tudo para ele era novo, assim como foi para mim. De garotão jovem e paquerador, passou a ser marido e, logo em seguida, pai, tornando-se responsável por uma vida que não sabia como cuidar… Experiência adquirida na marra, isso sim!

E acho que não facilitei muito. Ao crescer, tornei-me ainda mais enigma, fechei-me em ostras, deixei que a minha cabeça se inflasse de palavras e ganhasse voos, tornando-me a pessoa mais avessa – e porque não a mais idêntica – ao que ele era. No físico, extremamente parecidos, mas nas almas, completamente opostas. Fui – e ainda sou – o mais contestador, o que menos “puxa seu saco”, o que seguiu por caminhos que ele nunca imaginou… Fui o filho que não seguiu seus passos, o que enfrentou o mundo – e ele, em certos momentos, para ser apenas quem o meu coração mandava. Sabe o carinha que vem para tirar as pessoas da zona de conforto? É nessa hora que eu levanto a mão.

Por isso já brigamos muito. Nosso amor oscilou entre a raiva, a ira, a mágoa e o ódio tantas vezes que em, certos momentos, precisava parar e falar comigo mesmo – ele é o meu pai, ele é o meu pai. Acho que ele fazia o mesmo, em seu canto, tentando conter-se, moldar-se, amadurecer nessa árdua tarefa que adquire-se ao ter uma família. Até que chega a fase em que, ao sermos adultos, passamos a ver sua figura com outros olhos. E nos fitamos, sérios e compenetrados, em silêncio por um minuto, sem implicâncias ou excessos.

Neste momento é que criador e criatura se completam, veem o quanto juntos se moldaram em todos esses anos, e aí sim passam a acreditar como o amor acontece em nossas vidas.

Por incrível que pareça, faz poucos anos que dissemos um ao outro o clichê “Eu te amo”, mas com a carga necessária de sabedoria e sentimento que os anos nos trouxeram. Foi quando pude perceber que em todo o momento ele foi exemplo para mim, não só do que se “pode” ou “não fazer”, mas quebrou os conceitos românticos que os livros – e a propaganda – me deram. O legal não é ser herói, é ser humano. Pronto, encontrei o adjetivo perfeito para ele.

HUMANO.

Pai é aquele que através de suas fraquezas, falhas e erros transforma os seus filhos em grandes pessoas, com aquilo que você tem. É o que se irrita, briga e algumas vezes, se magoa, na intenção de fazer o bem para aqueles que deseja preservar. É quem pratica os atos de cair demais, levantar outras vezes, fazer cagadas fenomenais e acertos homéricos, mas nunca deixa de tentar ajeitar tudo. É a pessoa que busca nas suas imperfeições proporcionar a perfeição do outro.

Pois é, nem sempre é uma mão amiga que te leva para frente. Ás vezes, um pé na bunda também. Isso não quer dizer que ele não te ame. Todo pai pode ter um jeito meio estúpido de ser, mas cada um ama à sua maneira. Ás vezes temos um pai, uma pãe, dois pais, não importa… Cada um vai dar aquilo que puder, mesmo que para os outros não pareça nada.

E agora que achei o adjetivo para ele, sobre o que vou escrever mesmo? Acho que nada mais, já divaguei demais sobre estas linhas. Penso que devo sair da frente da minha realidade virtual e encontra-lo, em meu mundo real, sem fantasias. Não vou abraça-lo ou enchê-lo de beijos porque não é do feitio do nosso relacionamento. Mas sentaremos um de frente para o outro, beberemos aquela caipirinha que ele gosta que eu faça e falaremos banalidades, coisas do dia a dia de cada um. Mas entre nós, através da força dos nossos olhares e sorrisos, terá um amor e cumplicidade raro entre as pessoas. Sentimentos que somente um pai – e seu filho – podem compartilhar.

 

3 thoughts on “Divagações sobre o pai

  1. Joseane lopes

    Palavras mt forte e realista…Um Amor real.Parabéns ao pai e ao filho q com tantas diferenças e semelhanças construíram um amor real intenso e d base forte,algo q so s consegue com a convivência e a distância da vida real.Parabéns amei

  2. sonia peres

    Danilo, tambem conheço esse cara tao especial
    amigo das horas certas….como ja dividimos
    tantas aventuras em nossa juventude.
    Esse cara e mesmo o cara,um amigo pra la de
    especial que gosto muito e admiro por tantas
    qualidades que a gente sabe que ele tem..
    Suas palavras dizem tudo, desse Pai.
    um abraço
    Sonia

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