Eu e o tempo

Eu o esperei chegar, em silêncio… O corpo em repouso, tentando manter o coração e a respiração em sintonia, em contraste com a mente que, alerta, lutava com a ansiedade da espera.

Na penumbra, testemunhava a casa tornar-se inerte, antecedendo a sua chegada. Ouvia as pessoas deitando-se em suas camas, para enfim realizar os seus sonhos. Velava o sono dos gatos que ronronavam de satisfação, com seus olhos fechados, talvez caçando seus próprios ratos imaginários. Tornava-me solitário, ouvindo os sons morrerem através da noite, até que restasse apenas o zumbir inconstante e persistente do refrigerador a romper a quietude.

O sono veio me visitar, mas pedi que voltasse mais tarde. Espantei os carneirinhos que muitos dias fiquei a contar, derrubei as cercas e afirmei, veemente, que ainda não era hora. Arregalei os olhos e apurei os ouvidos, tentando discernir se ainda restava, planando pelo ar, os sons teimosos que a madrugada cismava em expor. Mas havia somente… o silêncio.  Nada de respirações entrecortadas para acompanhar a minha, sequer o zumbido de uma inoportuna mosca a voejar pelo ambiente.

Relaxei e sorri, coração disparado com a certeza de havia chegado finalmente o momento de encontrá-lo. Sentei-me na cama e fiquei à espera, aguardando o momento que pudesse fitar-lhe nos olhos e fazer a minha oferta. Tentava conter a ansiedade, controlar o meu desejo, respirar baixo, recebê-lo como quem encontra um amigo, e não um amante tomado pelos ciúmes. Como poderia brincar com alguém que nunca seria apenas meu?

Um barulho chamou a minha atenção, livrando-me dos devaneios. Fitei a porta que estremeceu levemente, a maçaneta cedendo ao mais leve toque, como se por ali passasse apenas uma leve brisa. O quarto foi tomado pela luz baça do corredor e sua silhueta ficou diante de mim, fazendo que, por um momento, eu me esquecesse de respirar. Ele entrou, sem fazer ruído, marcando com sua imponência o ambiente que me rodeava.

Ao ver que eu o esperava, fitou-me surpreso, com um ligeiro ar sorrateiro. Em seus olhos uma faísca pareceu piscar, como uma criança peralta que havia acabado de ser pega em flagrante. Como sabia que seria impossível fugir de mim, ele se aproximou e encarou-me, colocando uma máscara de severidade na face.

– Isto não pode acontecer… – me diz, com sua voz rouca e pesada. Encolhi-me por um momento, como se fosse novamente uma criança, sendo repreendida pelos pais. Um pequeno devaneio, uma vaga lembrança que logo se desfez. Ergui a fronte e enfrentei o seu olhar com a prepotência própria de certos homens que acham-se capazes de controlar o mundo à sua volta.

– Você sabia que eu iria esperá-lo – respondi, de forma apreensiva. Tentava não fraquejar, encantado com as suas belas feições imaculadas pela idade.

Por um momento, ele me encarou. Senti a força do seu olhar sobre mim, enquanto devastava minha alma, que se abria mostrando aquilo que eu verdadeiramente desejava.

– Não se pode ter o que você quer. – ele respondeu, sem hesitar. – Para adquirir o conhecimento da vida, você precisa pagar o seu preço.

Estremeci com a resposta. Porque não podíamos acumular o conhecimento dos anos sem perecermos? De que adiantava entender a beleza do mundo se os nossos olhos estivessem cansados demais para admirá-lo?

– E me encher de rugas, dores e fraquezas? Padecer de dores infindáveis? Deixar que tudo que você me deu se perca entre o cansaço do meu corpo? – afirmei, com os olhos marejados. Ele, em sua imensa sabedoria, colocou as mãos em meus ombros antes de replicar:

– Imagine, meu querido, se eu lhes desse o conhecimento sem nada em troca? Se todos adquirissem sabedoria e não envelhecessem? A evolução, o amadurecimento tem seus preços e suas dores. Cada dia deve ser celebrado e valorizado. O único preço a ser pago é esse: permitir que eu siga o meu caminho, entre vocês.

Em um átimo de segundo, agarrei suas mãos e estendi o meu braço, para acariciar o seu rosto, encantado com a maciez. Passei o dedo sobre os seus lábios e murmurei:

– Ah, se eu pudesse fazer o mundo girar diferente…– Ele apenas aquiesceu, sorrindo.

– Pense bem no que me diz agora, meu caro, e reflita comigo: o que seria da vida e da morte sem a minha passagem? O que vocês saberiam se eu, o Tempo, não os amasse tanto? Se eu não nutrisse um sentimento tão forte que carrego comigo, todas as noites, partes de vocês em mim. E me desfaço em pedaços, a cada instante, para que um pouco do meu conhecimento exista em vocês.

Diante de tamanha declaração de afeto, não hesitei. Abracei o Tempo e seu corpo imperecível, tão maior que os meus próprios sentimentos… Descobri que não poderia lutar contra sua passagem, mas poderia deixar que ela guiasse os meus passos. Afinal, por mais que neguemos, o conhecimento que a experiência que a vida nos oferta tem seu preço, e nada mudaria isso.

Fitando-o novamente, sussurrei:

– Nosso corpo deteriora, a pele se torna flácida e marcada. Os olhos se embaçam por tudo que o acúmulo dos dias nos mostra e a alma se exaspera ao deparar-se com o oculto da noite. Você leva a nossa juventude e junto com ela, a inocência humana diante da vida se perde em seus braços. Sim, através de você, o Tempo, adquirimos o conhecimento e com ele a morte… Mas ainda somos melhores que você, sabia?

Ele negou com a cabeça, no aguardo de minha resposta.

– Porque mesmo que você leve tudo que um dia foi importante para nós, – continuei – ainda temos a incrível capacidade de te perdoar. E agradecer por tudo que você, o Tempo, nos mostrou.

O Tempo sorriu e levou-me para a cama. Esperou que eu me deitasse e embalou-me, à espera da volta do sono. Cantou para mim, por fim, enquanto acariciava meus cabelos. E antes que meus olhos se fechassem, como uma dádiva de despedida, mostrou por fim uma fresta do seu conhecimento. Hipnotizado, vi mundos surgirem e se desvanecerem, sorrisos e lágrimas ecoarem mundo afora, razão e emoção a guiar multidões, bem e mal se engalfinhando, em um eterno duelo de amantes capaz de nos moldar como somos…

Acordei com o despertador a tocar na manhã seguinte. No quarto, sequer um vestígio de que por ali o Tempo havia passado. Ou será que o nobre visitante havia me deixado algo?

Uma ideia começou a tomar forma em meu pensamento. Corri para a frente do espelho e passei a esquadrinhar o meu rosto, atentamente. Surpreso, constatei que como gentil testemunha daquelas horas mortas, uma nova e suave linha repousava no canto do meu olho, demarcando o seu território.

Ele havia mesmo estado ali.

O Tempo, infelizmente, não havia me deixado os maiores segredos do mundo ou a grande sabedoria advinda dos reis. Mas me deixou a inspiração necessária para escrever para vocês sobre tudo o que me aconteceu. E, nesse exato momento, é só isso que me basta.

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