Formas

Ela sempre procurou moldar-se à beleza.
Desde que se entendia por gente e emitia os primeiros sons, quando as palavras ainda não dominavam os seus lábios, deixava-se levar por aquilo que a maioria julgava atrativo. Bebê ainda, mamava com mais afinco que as outras crianças para manter em suas perninhas e braços as conhecidas dobras na pele rosada, aquelas que fazem as mães – e candidatas ao cargo – brilharem os olhos, embevecidas. Manteve-se a criança robusta, exalando saúde, até perceber nos primeiros anos de escola, ao conviver com a micro sociedade que lhe fora apresentada, que as tendências e apreciações mudam. Afinal, as meninas e meninos sempre procuravam os mais magros e ágeis para brincar.
Assim, tornou-se em pouco tempo esguia e, para sua sorte, alta. Nada exagerada, como nada nela fora um dia sequer. Sempre na medida exata, fruto da sua pequena vontade de ser aceita. Uma pena que infância escoa mais rápido que a areia entre os dedos, e a menina logo alcançou a adolescência. Pois até aquele período havia sido fácil controlar o seu corpo, pelo menos assim pensava a menina-moça. Mas como lidar com as espinhas, os hormônios, os sentimentos à explodir na pele e o corpo a se descobrir em flor, transformando-se, desejando seguir o seu caminho em direção a maturidade?
A menina tentava, exauria-se, fazia o possível para transmitir com seu vulto a definição da beleza. Fazia dietas, engordava, vivia em torno de cremes para evitar as espinhas, humores e dores. Ao tentar atrair os outros mergulhava em um espiral alucinada, em que os sorrisos morriam e a necessidade de aprovação alheia se tornava algo viciante. Perdida, transformava o simples ato de caminhar até a calçada, aquela em frente de casa, um dramalhão mexicano, tamanho o uso de produtos e artefatos que a acompanhavam, munindo o seu corpo para a constante batalha.
Mas eis que um dia, a menina-jovem-mulher, aquela que vivia em constante metamorfose, em busca de formas que a fizessem plena, estacou, de súbito. Quedava de um absurdo espanto, parada no meio da rua, ao ver uma outra jovem-menina-mulher, que não fazia nada de incomum além de caminhar pela rua. Era despida de grandes atrativos, cabelos em multicores metamórficas, roupas sem combinar, ancas largas e seios livres em seu leve sacolejar pela vida afora.
Nossa protagonista poderia se vangloriar, falar que ninguém repararia na “pobre” que à sua frente passava, mas a outra, a oposta, não parecia se importar com isso. Ao contrário. Esta sorria, como aquela que acompanhamos nunca sorrira. Exalava tamanhos ares de liberdade que parecia ganhar prumo, livre do peso alheio que muitas vezes nos assola os ombros. Se lhe abrissem nas costas um par de asas naquele exato instante e ela alçasse voo, não surpreenderia a nossa personagem, que a imaginava tal qual uma borboleta voando entre as flores, alheia aos moldes alheios.
Quando por fim retomou a voz, a nossa personagem alcançou à sua antagonista, a não-vista, a capaz de atrai-la da mesma forma que a repelia. Tocou-lhe o braço para ver se era real e perguntou-lhe, como se naquelas palavras pudesse obter os segredos recônditos do universo.
“Como conseguiu ser assim?”
A outra a fitou e triste, deparou-se com alguém visualmente impecável, mas vazia em seu interior de emoções, de sentimentos. Algo que de tanto moldar-se para outros padrões, perdeu sua própria forma, desgastou-se, indefiniu-se. Assim, num gesto de piedade, contou o que havia de mais precioso em si, esperando que a nossa menina-ainda-menina entendesse.
“Deixei de ver o que é belo aos olhos dos outros e passei a olhar o que é bonito para mim. Isso é o que me deixa feliz.”
Aquelas letras, tão pequenas, tomaram força e arrebentaram peito adentro de nossa protagonista, tornando-se agente de mudanças. Lá, acolhidas com vontade, tornaram-se furação, força, turbilhão.
Foi assim que um dia ela parou de arrumar os cabelos e deixou que eles sentissem o sabor do vento. Depois aboliu os saltos e as roupas sufocantes. E percebeu que cada gesto, por mais ínfimo que parecesse, parecia deixar tudo mais leve.
Exaltada com os resultados, abandonou os cremes desnecessários, fez a primeira tatuagem, colocou um piercing na língua e resolveu conhecer as pessoas que queriam conhecê-la, de verdade, e não por comodismos e censuras. Ao buscar a beleza interior, tornou-se mais linda, segura e selvagem. Diferenciou-se por ser borboleta em um mundo de mariposas. Foi assim que descobriu que a beleza não está nos gestos, nas vestimentas ou nas roupas. O que é verdadeiramente sensível aos olhos é o que brota do peito, alcança a alma e se espalha por todos os cantos e contos.
Quando ela passou a ser coração e sentiu o mundo, ele finalmente passou a ser seu.
Foi só assim que os outros verdadeiramente a notaram. Quando ela descobriu a sua própria voz em meio ao coro monótono dos outros, que a vida fez-se música.
E ela se pôs a dançar.

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