Na boca dos outros

– É o fim do mundo! Porque a televisão insiste em mostrar uma pouca vergonha como essa?!

A boca se contorce em um muxoxo, mostrando-se inconformada com toda aquela situação. Calma, minha gente, todo esse desprezo que a boca demonstra não é dirigido a famosa cena de novela, onde um afetuoso beijo entre duas mulheres acontece. A boca se irrita e crispa, incomodada com o comentário que o cérebro, tacanho e retrógrado, faz tomar forma através da voz. Indiferente a opinião dos olhos, que lhe narraram a dita cena com toda a beleza de detalhes, o famoso órgão, que se autodenomina chefe de todo o corpo, é incapaz de lidar com a confusão de sentimentos que aquelas duas pessoas lhe trazem. Mesmo sendo um ficcional encontro, o cérebro critica duramente aquilo que não é exato, racional e pontual. Para ele, como muitos outros cérebros em cabeças muitas mais proeminentes, uma situação como aquela era inaceitável, pois destruía a todo instante o bom conhecimento que até então arduamente cultivara.

Mas para a boca, aquilo bastava. Estava cansada de ser utilizada para coisas que não concordava. Prezava gestos como o canto, a risada e o diálogo. Sua missão era alimentar o corpo e alma, e não denegrir ao outro. Preferia participar do beijo que do xingamento, do lamber do que o do morder, do gemido à ofensa.

Foi assim que, mais tarde, enquanto o corpo dormia e o cérebro ficava centrado em seus próprios e pequenos pensamentos, a boca resolveu que era hora de fazer aquilo que lhe desse na telha… E transformar o cérebro, racional e decrépito julgador, em réu. Por isso, mal descansou a noite toda, sussurrando todos os detalhes de seus planos aos ouvidos que estivessem dispostos a escutá-la, para que contassem as bocas alheias que era hora de lutar, por fim, contra a corrupção que percorria as mentes.

Mal o sol nasceu, as bocas em polvorosa estavam à postos para fazer o que bem entendiam, ignorando completamente aos mandos e desmandos dos cérebros incautos. Torciam-se e travavam, não permitindo que os gulosos se alimentassem dos mais deliciosos doces e impedia os beijos também entre homens e mulheres, exigindo direitos iguais à todos. Em poucas horas, a voz, achando tudo divertido, aliou-se a causa e fez os políticos falarem apenas a verdade ao povo, e que os tímidos declarassem suas paixões mais secretas. Naquele dia os armários foram escancarados e muitos que criticaram o gesto de carinho do dia anterior pediram por beijos que o cérebro julgava completamente errados. O tão criticado órgão perdia terreno a cada passar de horas, pois as pessoas deixavam aquilo que todos julgavam certo de lado, para exaltarem apenas aquilo que os faria felizes, aquilo que deixava o coração acelerado (sim, este também havia virado às costas ao símbolo do pensamento).

Gritos deram voz aos cantos e a música. Mãos se tocaram e olhos se encheram de lágrimas, permitindo assim que todos se tornassem emocionais. As pessoas, que primeiramente não sabiam o que acontecia com seus corpos, resolveram relaxar e fazer aquilo que os seus corações mandavam, sem pensar nas consequências e na culpa que lhes era imposta desde o nascimento.

Por fim, cansado de esbravejar, o cérebro rendeu-se e chamou a boca, disposto a ouvi-la. E os lábios, que eram portadores não só dos impropérios, mas também das orações, pediu para que as pernas guiassem o seu dono até a frente de um computador. E com o apoio das mãos, digitou palavras capazes de iluminar até os seres mais tacanhos, como igualdade, fraternidade e paz. Também mostrou as palavras más, aquelas que trazem peso ao coração, como homofobia, preconceito, racismo, crime, diferença e violência. E o cérebro por fim começou a entender que entre os homens haviam pessoas diferentes, assim como no corpo que ele tão habilmente comandava. E assim como precisava da boca e suas verdades, o coração e sua energia, ou até mesmo a habilidade das mãos e dos pés para que tudo se mantivesse funcionando, entre eles, os homens, seres de qual ele era apenas uma ínfima parte, também era preciso pessoas diferentes para que nada ruísse. Deles faziam parte os corajosos, os amigáveis, os sensuais, os bravos e os íntegros. Também havia os cruéis, os déspotas e os tiranos, é claro. Mas na vida era preciso conhecer o mal para que se celebrasse o bem. Assim, o cérebro resolveu despejar a soberba que tão confortavelmente estava instalado em sua casa e dispôs-se a escutar não só a boca, que mostrou-se sábia, mas cada parte do corpo que muitas vezes ignorara.

Só quando pode pôr fim entendê-los em toda sua plenitude foi que a boca, em uma última lição, surpreendeu o cérebro, mostrando que existiam certas coisas que ele nunca seria capaz de comandar: os sentimentos. Carinho, paixão e desejo, entre tantas outras sensações, que transcendiam o entendimento daquele que, naquele momento, se sentia apenas um amontoado de carnes e neurônios. Sentimentos estes que tornavam o ser humano tão especial, quase divino.

Após entender tudo aquilo que a boca lhe mostrara, o cérebro, mais atento, reviu a cena que tanto criticara, dias depois. E ao rever as mãos hesitantes, o encontro gentil dos lábios e o brilho vindo dos olhos daquelas duas mulheres, descobriu que todas aquelas sensações que dominavam os humanos, pequenos milagres incapazes de definir em palavras, não tinham sexo, gênero, classe social ou cor definidos. E por mais que tentasse catalogar e definir aquela infinidade de coisas, sabia que nunca as entenderia em sua completude. E, por fim, pediu a boca e aos olhos que expusessem ao mundo a única forma de mostrar que havia finalmente entendido aquilo que todo o resto do corpo tantas vezes lhe falara.

E para verem este tão belo resultado, precisaremos fazer um último gesto.

Portanto, afastem-se comigo por um instante. Deem apenas um passo para trás, afim de ver o quadro que se desenha em toda sua amplitude. Testemunhem comigo o corpo de uma austera e rabugenta senhora, no meio da sala, entre os parentes. Veja com espanto ela sorrir, com lágrimas nos olhos e um suspiro murmurado nos lábios, diante da cena que tão duramente criticara dias atrás. Contemple o milagre de, quando por fim, o corpo entra em sintonia e abraça aquela centelha inexplicável, para muitos chamado de alma. E para mim, chamada pura e simplesmente de amor.

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