Não-Amar

Eles passaram a se amar quando se separaram.

Entre os dois, o verdadeiro sentimento, aquele que remexe as entranhas e por fim nos nocauteia, não surgiu na primeira troca de olhares, no beijo ensaiado e ansiado, nem mesmo nos dias que se seguiram, nos quais eles permaneceram lado a lado.

O sentimento os arrebatou quando decidiram dar-se adeus. Ao afastarem um passo e estender as asas de seus próprios desejos em busca da liberdade, despojaram-se dos sentimentos sufocantes do amor formatado, descartando, por fim, a posse que um exercia sobre o outro.

Viram-se em suas totalidades, despidos dos desejos e expectativas projetadas. Encolheram os braços para se despedirem e sorriram, isentos dos ciúmes e sem disposição para discutir. Não decidiram estreitar laços, mas prometeram um ao outro manter contato.

No decorrer dos anos, amaram-se entre silêncios e pausas. Encontraram o tom certo e, cada um a seu modo, fizeram sinfonia. Mas engana-se quem pensa que os dois voltaram a ficar juntos como o casal que foram. Compartilharam, sim, os seus momentos. Em vez de se tocarem na cama, tentando destruir a punção de solidão que vivia prestes a consumi-los, impediram que o afeto fosse desgastado pelos lábios, transformando-o em gestos de apoio e incentivo. Unidos em um não-relacionamento, recusaram a se fitarem, e em certa ocasião, na Paulista da hora do rush, de olhos cruzados despediram-se da fidelidade, da falta ou excesso de bens, e prometeram abandonar-se em caso de doença, fugindo assim dos olhares de piedade e pena. Juraram respeitar, amar somente a si mesmos, sendo felizes, cada qual à sua maneira.

No passar das horas e anos, puderam abrir seus desejos, medos e anseios, sem medo de julgamento ou cobranças, já que os resultados de seus atos, inconsequentes ou não, eram incompatíveis a vida e objetivos daqueles que nunca seriam almas gêmeas, conceitos idealizados pelo tolo romantismo. Tocaram outros corpos, beijaram outras bocas, alcançaram novos níveis de gozo e depois procuraram a quietude que a presença daquele ou daquela, o não-amado, poderia lhes dar.

Casaram-se, descasaram-se, tiveram filhos, permitiram que eles ganhassem o mundo. Encheram a sua vida de outros, relegando o ente não-amado a um espaço menor, mas seguro, dentro de seus pensamentos. Sempre permitiram que seus caminhos se cruzassem, mesmo que de relance, sentindo enfim o compasso contrário do coração, o sentimento que agrega, não consome, somente completa.

Assim sendo, um dia ao ano pelo menos, eles se encontravam, em uma mesa qualquer, para celebrar o anti-amor inconsumado. Olhos nos olhos, em entrega mútua, sem barreiras, conseguiram desvendar os mistérios do tempo sabiamente, sem rubores, receios ou grandes preocupações… Mal percebiam os cabelos grisalhos, começando a rarear, as rugas furtivas nos cantos dos lábios ou a respiração ofegante – não pela ansiedade, deixemos claro, mas pelo cigarro que ele insistira em nunca deixar.

Mantinham-se ali, sem trocarem palavras. Após um momento estendiam os braços e permitiam que as mãos fossem tocadas, dedos agarrados, transportando ali toda a ânsia e desejos de felicidade eterna dirigidas ao outro. Levantam-se minutos depois e cada um seguia seu rumo, mergulhados em suas vidas e desafios, mas reabastecidos pelo sentimento que não deveria uni-los.

Para eles, a ausência dos corpos permitia que as almas se encontrassem. Tanto que casaram-se no mesmo dia, tiveram filhos com nomes parecidos e a mesma quantidade de netos. Seus familiares nunca se conheceram, mas seguiram trajetórias paralelas. O filho dela virou escritor. No caso dele foi a neta. A filha dele formou-se obstetra. A neta dela, cirurgiã. Em algum momento, suas vidas se cruzaram através de seus descendentes, mas nunca se encontraram. Em todos os aspectos, o nosso casal tão peculiar estava destinado a não ficar junto, e assim ser feliz por enquanto.

No último dia, eles marcaram de se encontrar, mas com o peso da idade a oprimi-lo,ele resolveu deixar de lado o encontro. Revoltado com esse gesto, o coração o traiu, recusando-se a bater. Ela, ao contrário, com dificuldade, foi ao encontro do seu destino, aquele que não apareceu. Em protesto, o coração dela resolveu seguir aquele que a entendera por todos estes anos e também parou, disposta por fim a segui-lo e aos seus sentimentos não-existentes. Quis o destino, eterno brincalhão, que a história daqueles dois, aquela que nunca se viu igual, tivesse o mesmo fim. Unidos pelo acaso em leitos do mesmo hospital, um ao lado do outro, fizeram o último encontro. Olhos nos olhos, estenderam os braços sobre o leito e se deram as mãos trêmulas, a última de muitas que os anos presenciaram, a fim de agradecerem por tudo aquilo que eles não tiveram, e sendo felizes por isso.

Não carregaram consigo arroubos, explosões de dor ou paixão além dos limites. Para muitos de vocês podem parecer duas vidas ordinárias, já que toda essa história será esquecida diante daquilo que vivencia, ou melhor, tudo aquilo que eles não viveram.

A única coisa que marcou este exato instante foi uma última frase, citada em sintonia desconexa, repetida sílaba a sílaba.

– Eu não te amo – e por fim partiram, lado a lado, sem darem as mãos. Realizados por tudo aquilo que viveram.

Se eles estiverem vendo você, que lê esse relato, de algum lugar, rirão dos seus sonhos de amor possessivo, das brigas desenfreadas para marcar no corpo do outro o seu nome, o ciúmes, as mágoas, as discussões e o modo selvagem com que faz o sexo das pazes. E terão ainda mais certeza de como se amaram da maneira única e particular, sentindo algo tão intenso que transbordasse por todos os lados, e refletisse nos outros que os rodeasse. E, enquanto muitos de nós viveremos na ilusão de buscar no outro o felizes para sempre, algumas pessoas especiais, como eles foram, irão viver uma vida fora de conceitos, cheia de não sentimentos, sem buscar sentidos e, no fim sorrirem, realizados, pensando em como viveram bem as suas vidas.

A escolha de para onde direcionar o amor depende de cada um de nós. E espero que esta pequena história ajude você a fazer da melhor forma a sua.

7 thoughts on “Não-Amar

  1. Rodolfo Euflauzino

    li e reli… costumo dizer que o autor atingiu o estágio avançado quando suas palavras e frases deixam de ser apenas períodos e passam a ser poesia. querido, suas palavras me tocaram fundo, só quem viveu e vive o amor intensamente conseguirá abarcar a quantidade de sentimentos impressos em cada parágrafo. você domina o léxico como poucos, e por isso admiro sua capacidade de me colocar frente ao espelho a me questionar. isso faz uma diferença enorme. parabéns!

    1. Danilo Barbosa

      Eu que agradeço o carinho, Rodolfo. Quando as palavras nos tocam e conseguem atingir o leitor em total sinergia, significa que cumprimos a nossa missão. Um grande abraço!

  2. FML Pepper

    Querido Danilo,
    Em alguns momentos suas palavras rompem a barreira do belo, ultrapassam o patamar do perfeito e tocam os nossos corações. E quando me refiro a “perfeito”, não miro um “gramaticalmente arrumadinho”, mas um perfeito poético.
    Porque é o que você fez com os parágrafos neste texto encantador, caro amigo.
    Você construiu e moldou poesia emocional.
    Maravilhoso!!!

  3. Lunna Marcela

    Danilo, seu texto calou fundo na minha alma, me deu um soco no estomago e me deixou um nó na garganta, agora sei que tenho aqui dentro alguns mls de lágrimas para derramar a qualquer momento no decorrer deste dia srsrs. Fiquei impressionada demais com este texto e só aqueles que amam profundamente mas precisam abrir mão de “ter” esta o alvo deste amor consigo mas não se dispõe a abrir mão deste “não-amor” vão entender como é difícil chegar em um patamar deste de falta de relacionamento. bjs grata por me brindar com seu trabalho.

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