O careca

Eu me recordo daquele dia com exatidão, nos mínimos detalhes.

Parado, diante do espelho, disposto a fazer a grande mudança. Fitava-me de frente, perfil e abaixava a cabeça timidamente, fitando os cabelos rareados, aqueles que se tornavam quase nulos ao chegar a nuca, me tornando um frei sem qualquer santidade.

Nunca fui um grande ícone capilar, pelo menos nos últimos anos. Tanto que ao olhar minhas fotos de infância, os cabelos cacheados que chegavam aos ombros, uma saudade infinda brota de mim, perguntando onde aquele sortudo garoto havia se metido.

Juro que, ao fitar no reflexo minhas míseras madeixas, nunca estava contente. Era o retrato da insatisfação. Quando curtas, elas mostravam mais pele que fios. Quando compridas, eu me olhava no espelho perguntando se me parecia mais com Einstein em seu famoso retrato… Ou com o Bozo.

Por isso, naquele exato instante, me dispus a revolucionar o modo de me ver. E mais que decidido, declarei, com afinco:

“Desisti de cortar meu cabelo. Vou passar a maquininha. Vou zerar tudo!”

A cara do meu amor, cheia de receio e espanto ao ouvir minha declaração, foi cômica.

“Tem certeza?”

Assenti com a cabeça, peguei as ferramentas e comecei a devastar minha floresta capilar, o zumbido da maquininha a tomar o ambiente. Assumo que nunca fui um grande exemplo dos bastos cabelos, mas raras vezes deixei meu raro espécime ovoide exposto. Firme e forte em meus objetivos, não hesitei: deixei que os cabelos caíssem sem lágrimas ou luto, atento enquanto a máquina dizimadora abria caminho. Em poucos minutos, eis que então, ela surge… Minha cabeça nua em todo o seu esplendor, como uma lua, em sua palidez lisa. Nascia ali, portentosa e elegante, uma nova versão calva do meu eu. Ao fitar-me, quedei em espanto, entre perdido e maravilhado, olhos renascendo na nova forma que em mim surgia.

Ao renascer, meu amor olhou-me com a forma terna de sempre, e abençoou-me tocando com seus lábios macios e quentes minha pele que descobria o mundo pois, para o amor, aquilo que os olhos testemunham não importam. O válido é o que se sente.

Saí as ruas exibindo minha reveladora cabeça. Alguns estranharam, outros gostaram. Alguns acharam que eu havia sido assolado por alguma sombria enfermidade, outros aprovaram a minha atitude em jogar às favas os sensos estéticos.

Mais do que todos, eu descobri como damos pouca importância a atitude de expor-se como verdadeiramente somos. O certo é não se esconder atrás dos adornos que trazemos para a vida. Com a careca exposta, mostrei sem pudor cada um dos defeitos e cicatrizes que possuía, mesmo os ínfimos. Afinal, não são parte da minha história? Mesmo a mais mísera mancha?

Mostrar-se é superar-se. Ficando careca, aprendi a sentir as menores coisas como o toque suave de uma mão ou uma brisa fresca com maior intensidade. Aprendi que não preciso me enfeitar ou usar de artifícios para as pessoas repararem em mim, basta olhar nos olhos, nos detalhes do rosto, nas coisas tão belas que não reparamos, que ficaram escondidas tanto tempo. Isso não quer dizer que esteja recomendando que todo mundo exponha-se. Não estou gritando: fiquemos todos nus (pelo menos em quesitos capilares). O que desejo é que todos sejam livres de conceitos, ideias, moldes, livre-se do não faz parte de você, de todas as formas. O ato básico de raspar de cabeça expôs detalhes meus que, em meio aos cabelos, mesmo que poucos, eu nem percebia. Quem sabe o gesto de arrancar do seu caminho os padrões e expectativas dos outros possa fazer com você? Descubra e me conte.

Deixe uma resposta