O próprio amor

Ele acordou disposto a mudar sua vida. Cansado do descaso das pessoas que não o notavam, preocupados apenas com os seus próprios desejos, ele gritou ao mundo que a sua transformação pessoal começaria naquele mesmo instante. Parava aos outros na rua, declarando-se independente daqueles que o cercavam, afirmando que iria largar tudo aquilo que o incomodava e simplesmente ser feliz. Parou na banca de jornal e riu diante das colunas sociais e pautas políticas. Desdenhou aqueles que buscavam por bens medianos nos classificados, e disse que ali não encontraria o seu amor-próprio.

Ignorou os rostos cinzentos e fechados do seu trabalho, e comentou que suas existências amargas não iriam mais feri-lo. Aos que se espantaram com suas novas atitudes, ele erguia o rosto e batia no peito, pleno em sua autoconfiança, no rosto afixado um sorriso aberto. Preencheu-se do burburinho e sua presença, até então invisível, fez-se notar. Saiu da passividade imposta pelos dias e recusou-se a fazer aquilo que não lhe cabia, causando a revolta dos acomodados e fingidores. Em vez de dar ouvidos aos assuntos alheios, colocou os fones de ouvido e propôs-se a ouvir apenas músicas que o fizessem sorrir.

Invadiu a sala do chefe e despejou tudo aquilo que o corroía, o incomodava. Citou os desmandos um a um, sem se importar com que o outro iria pensar. Quando este, irado, o demitiu, ele gargalhou e desejou-lhe toda a felicidade do mundo. Despediu-se de todos e prometeu nunca mais voltar. Tomou a vida nas mãos sem ter medo de que ela transbordasse.

Pela primeira vez caminhou sem se preocupar se alguém estaria ao seu lado. Passou o resto da tarde descobrindo que tinha em si mesmo a melhor companhia. Vagou por ruas e vielas, cumprimentou rostos que nunca vira antes, ricos e mendigos, sem esperar aprovação alheia. Deixou que sua mente se tornasse multidão e, sentado em um canto, acessou pelo seu celular todas as redes, chamadas sociais, e deletou de sua vida virtual todos os que não tinha contato real.

Sentado na grama, paletó jogado de lado, viu maravilhado o sol se pôr. Jurou a si mesmo, com os olhos úmidos, deixar que os bons sentimentos o consumissem sem o menor cuidado, em um gesto de pura gula. Jogou fora todos os falsos rostos que utilizara durante a vida e reviu sua própria face, que há tanto tempo o espelho não refletia. Era novo e velho, sábio e tolo. Vivo.

Recusava-se a continuar vivendo pelo simples passar dos dias. Decidiu-se a parar de correr e passar a andar, maravilhando-se com as cenas mais simples. Se tivesse de criticar algo, seria a rotina, o regular, aquilo chamado tristemente de normal. Se propôs a transformar vidas, em vez de destruí-las. Queria a desestabilidade e a insegurança dos momentos, a dúvida daquilo que não era para sempre.

Determinado, levantou-se outro, conhecendo-se em minutos o que não conseguira em anos. Sabia que havia despertado, por fim, e não se abandonaria mais. Se tivesse de sentir algo, amor ou dor, sofrimento ou desapego, que fosse por completo. Afinal, não se mata a sede com um copo de água pela metade.

Ao chegar em casa, abriu as janelas e convidou os barulhos da cidade a quebrarem o seu silêncio. Abraçou-se e guardou dentro de si todos os seus medos e verdades. Ergueu os dedos para o céu e desenhou nas estrelas os seus sonhos e desejos em forma de poesia. – Amo-me – gritou, e permitiu que este sentimento lhe abrisse os olhos, deixando que o vento levasse a venda de autocomiseração que lhe cobrira a visão.

Antes de se deitar, permitiu que a mente voasse, sem se importar com o que faria no dia seguinte. Tomado pelo doce egoísmo, queria pensar no momento que se desdobrava, naquilo que sentia por si, e naquele instante nada mais era importante. Sonhava alcançar todos os seus desejos impossíveis, pois o possível era fácil demais para que ele se dispusesse a conquista-lo. Era ilimitado e a cegueira dos comuns não o contagiariam.

Estava pronto para ser extraordinário. E para isso, despiu-se das roupas e sentiu a pele nua sobre suas mãos. Pediu-se em casamento e prometeu respeitar-se, idolatrar-se e ousar, sempre, para perder o medo. Deixou que as mãos tocassem o próprio rosto e alegrou-se com suas imperfeições, já que o mais bonito de cada um é o fato de sermos, é claro, humanos e imperfeitos. Perdeu-se em si até que o sono chegasse e, antes que a inconsciência o encontrasse, descobriu, em um fulgaz clarão, que aquela era a melhor forma de viver. O resto era inexistir.

No sono, dispôs-se a caçar seus sonhos. Foi então o herói da sua história. E viveu do seu próprio lado, feliz, para sempre.

3 thoughts on “O próprio amor

  1. Leonardo Souza

    Texto muito tocante. Cheio de verdade, dor, sentimento e esperança. É difícil não se identificar com as palavras, em algum momento da vida todos temos que passar por esse clarão de se auto conhecer. Parabéns pela vida maravilhosa que deu ao texto.

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