Olhar

– Tudo pronto por aí?

Uma voz surgiu à minha frente, fazendo-me abrir os olhos que tão pouco viam. Assenti a cabeça diante do claro borrão que meus olhos captavam. Branco sobre branco, cores esmaecidas que bailavam sem definição diante de minhas vistas que insistiam em permanecer alheias aos meus apelos.

Eu também, recoberto de palidez, levantei-me diante da sombra de sorriso que pairou diante de mim. A segui, lentamente, sentindo-me como um astronauta que se depara com o fantástico, o imensurável. Aquilo que sempre desejou mas, diante dos receios e expectativas, sempre temeu se deparar.

Em poucos minutos, a mudança teria início. Aboliria de vez os óculos da minha face, as grossas lentes que foram o suporte deste que vos fala durante décadas. A cada passo dado, vivenciava pequenos lutos, despedindo-me com um misto de pesar e alegria os famigerados apelidos deixados na infância ou até os galanteios que a mim eram dirigidos, atribuídos ao meu tão comum acessório, pendurado no meio da face. Os hábitos, já tão particulares e instintivos, como estender as mãos para pegar os óculos antes mesmo de abrir os olhos ou ajustá-lo no rosto sempre que escorregava, tinham de ser revistos, pois perderiam a sua utilidade.

Iria assistir ao espetáculo da vida sem subterfúgios. Veria a vida como ela realmente era. Repetia, como um mantra, enquanto deitado, o raio passando pelos meus olhos, magoando-os para que, assim, eles mudassem.

Assim como acontece conosco. Quantas vezes, ao sermos feridos, mudamos?

Neste instante, eu desperto. Tudo criou foco, cor definição. Cerquei-me de detalhes, risadas e a certeza de que as coisas, por fim, se encaixavam. Restava em mim a impressão de que aquela sensação existiria em mim para sempre.

Meia hora depois, tornava-me miseravelmente humano e ferido. Um ardência intensa nos olhos impediam-me de levantar as pálpebras. Tentava rever os fatos, percebendo onde havia errado. Ansiava pela fria escuridão para cessar o meu incômodo. E aquela sensação foi só a primeira de muitas.

Foram dias ora bons, ora ruins, entremeados de alegria e frustração. Em alguns instantes via tudo, em seus mínimos detalhes, munido de uma nitidez fabulosa. Outras vezes parecia que o mundo se distanciava de mim, aprisionado atrás de um vidro embaçado.

Hoje, exatamente um mês após a cirurgia, ainda tenho os meus momentos. Oscilantes, inconstantes e imprevisíveis. Mas, mesmo assim, fabulosos.

O que posso afirmar, com toda certeza é que, neste exato instante em que escrevo para vocês os meus devaneios, reflito se consegui aquilo que desejava. Afinal, não queria ver todo o mundo como realmente era, sem efeitos?

É não é exatamente isso que está acontecendo comigo?

Quantas vezes nos cercamos de tanta dor, que o simples fato de olhar o mundo à nossa volta parece insuportável? Aqueles momentos em que desejamos permanecer na escuridão, em gestação, pedindo ao tempo que leve todo o incômodo que corrói a nossa alma. Mas, como sabemos, é só ter paciência que passa.

E por mais que o tempo escorra entre os dedos, a experiência que a vida nos proporciona não possibilita que analisemos todas as situações da vida com clareza. Muitas vezes passamos pela solução mais óbvia, sem perceber. Ou precisamos esperar que tudo clareie em nossas mente para tomarmos a melhor decisão. E temos as ocasiões, é claro, que os momentos se apresentam de forma tão clara e prática diante dos nossos olhos que comemoramos, certos da vitória.

Isto é viver, com os doces dissabores que o amadurecimento proporciona.

Por isso, recomeço a minha jornada sob novos olhares. Em vez de procurar ver o mundo em High Definition – pelo menos por enquanto, prefiro o bom e velho Technicolor, em suas cores vibrantes e únicas, capazes de nos proporcionar belos e variados espetáculos em um piscar de olhos. E você, caso deseje se encantar com a beleza simples do que nos espera, pode vir comigo.

 

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