Palavras por todas as cores

Prezados senhores que, sentados em suas poltronas, diante desta bancada me julgam, venho me apresentar. Sou aquele que vocês ofendem sem conhecer, criticam e apontam o dedo indiscriminadamente, como se em meu peito estivesse uma marca asquerosa demarcada em tons de rosa. Ao me verem, vocês tem o medíocre e repetitivo costume de chamar toda a corte divina em orações de palavras repetidas, insensíveis, cheios de propriedade, como se o divino estivesse disposto a escutar suas palavras sem vislumbrar as asperezas que percorrem seus corações. Sou o chamado de pederasta, o gay, o viado, o invertido, aquele que foge dos vossos conceitos de moral e bons costumes.

É em corpos como o meu, repletos de ideias, sentimentos e fés diferentes, que vocês jogam suas pedras, esquecendo que elas só podem ser atiradas por aqueles que nunca tenham pecado, caso que não se aplica a vocês. Afinal, a incitação ao ódio, o preconceito e a falta de amor ao próximo não são falhas mortais? Mas não se preocupem, não farei como vocês e apontarei o dedo em julgamento, me recuso a vir tentar mudar esse reino de meninos mandões onde tão comodamente vivem, em sessões de palavras sem sentido, cercados por pessoas que se autodenominam porta-vozes de um Deus que reside dentro de todos nós, independente de nomes ou credos.

Não venho destruir significados, mostrar que o tradicional que tanto aspiram nunca existiu. Essa verdade está nas ruas, nos olhos das pessoas e em seus anseios. Somos seres pensantes, em busca de mais, da satisfação de nossos prazeres e poderes. Por isso represento a mim e a todos, ao negro, a lésbica, a mãe de santo, aquele que acredita na pluralidade dos amores, aquele que se cobre em panos em nome daquilo que move a sua fé. Não represento, isto com certeza, a ignorância do que desdenha, do que julga, do que condena sem ter poder para isso, aquele que tenta destruir aquilo que deseja, aquele que oprime aqueles que são livres.

Não sou apenas o cara que faz sexo com outro cara. Sou movido a desejo, a tesão, a vontade. Mas também sou amor, fé e sei o peso da paz que carrego no peito. Sei a aspereza da língua entre os lábios, a sensação da barba entre as coxas, o ritmo de dois corpos iguais no ápice do prazer, é claro, mas também conheço o calor de um abraço, o carinho fraternal e a delicadeza de quando estendemos a mão para ajudar o próximo, gesto que muitos pregam, mas nem sempre fazem.

Eu sorrio, falo e opino, mas também sofro, sangro e choro diante da perda. Não tento ocupar o lugar de suas esposas debaixo desses lençóis imaculados, pelo menos é o que dizem… Na verdade, não temos inveja das mulheres. Simplesmente a admiramos como são, com suas belezas e conquistas. Não queremos reivindicar a maternidade, não queremos a menstruação ou aos ápices hormonais. Tudo bem, assumo: talvez tenha um pouco de inveja dos orgasmos múltiplos e duradouros.

Fujo de rótulos e catálogos. Estou algo e nunca apenas serei algo no decorrer dos meus dias. Por isso, olhem além das palavras que me classificam. Como eu tem professores, idealistas, escritores, juízes, policiais, religiosos, entre outros, cujo detalhe que mais se destaca em suas mentes tacanhas – com quem ele vai para a cama? – é apenas um pequeno detalhe de miscelânea poderosa que me torna vivente. Por isso, venho aqui, não pedir para que não julguem, ou que mudem suas opiniões, já que delas são feitas seus maiores sonhos e suas mais pesadas consciências. Peço que amem, indiscriminadamente, uns aos outros, como eu amo vocês… E os perdoo. Tente tocar um desconhecido, conhecer sua história, seus problemas, sua fé. Trabalhe seus conceitos com algo que conheçam e respeitem. Tragam para a vida real a nossa mais lamentável lenda urbana: a de que somos laicos. Respeitemos o próximo como a nós mesmos, vejam a si mesmos pelos meus olhos e pelo meu coração, e se coloquem em seus verdadeiros papéis de algozes.

Erra quem pensa que entre nós, ou entre vocês, existem apenas pessoas boas ou más. Existem pessoas, com suas falhas, acertos e consequências. Basta que cada um reveja os seus próprios passos em vez de ver os do outro.

Por fim me retiro, de peito aberto, de alma limpa, com Deus, Buda, Jeová, Allah e Oxalá em meu coração. E se quiser me acompanhar, não tenha medo, ser diferente não dói. Ao contrário, é nas diferenças que fazemos um mundo melhor. Caso duvide, tire a venda que colocou em si mesmo e veja o mundo sobre novas cores.

Sei que no final, para muitos, estas minhas palavras serão vazias. Nem sequer ouso imaginar em pensar na ideia de um felizes para sempre. Mas acredito que o amor sempre vence, e em algum momento, essas pequenas palavras farão a diferença. Pois sempre haverá luz na escuridão, e beleza na sombra da maldade.

Sigam mais os seus instintos. Sejam vocês mesmos.

Sempre.

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