Para ser feliz

Para ser feliz, ela colocou o seu próprio mundo de cabeça para baixo.

Passara muito tempo sendo apenas o esperado. Obrigada, diariamente, a omitir seus pensamentos e opiniões. Guardara o coração em uma gaveta impessoal, permitindo que as engrenagens da razão ditassem seus passos. Sendo máquina, e não humana. Tentando moldar-se continuamente ao palavreado alheio, mil e uma vozes que lhe ditavam verborragias diárias, impedindo-a de ter sequer um gesto sincero.  Mãos a empurrando para frente, com seus incentivos comuns, a enchendo de roupas, palavras e máscaras que não eram suas. Tornando-a fria onde antes era chama acesa, esperança maravilhada diante das coisas consideradas banais.

Só a noite, na escuridão do seu quarto, antes que o sono a tocasse, ela ainda conseguia ouvir o pequeno retumbar do coração, aquele que, mesmo esquecido, nunca a abandonara, permitindo que sorrisse, amasse e sofresse, mesmo contidamente. Pois assim, mesmo que todos se voltassem contra ela, tentando domar a sua natureza, algo em seu cerne permaneceria autêntico.

Por muito tempo dessa forma ela existiu. Dizendo não quando queria o sim, manter-se em silêncio quando desejava declarar o afeto, recolher as mãos quando ansiava apenas afagar aqueles que necessitavam de um gesto de carinho. Perdeu-se na insignificância quando desejava sentir-se importante. Afundou-se em moldes, quando prezava pelo seu formato único, especial.

Por fim, não percebeu que quando chegou em casa, em mais um dia sem sentido, algo em si parecia quebrado, partido. Suspirava sem saber o porquê e lutava com lágrimas que nem pareciam suas. Foi quando, em meio aos lençóis, buscando o sonho, descobriu a mais dura verdade: o silêncio imposto. Nem um tiquetaquear, um sonoro murmurar ou um sinal de reconhecimento.

Olhos arregalados, ela descobriu que não ouvia mais o seu coração.

Cansada, magoada, ferida, clamou por ele, sem respostas. Proferiu palavras de ódio, primeiro ao mundo por tentar destruí-la, e depois a si mesma, por deixar-se permitir que aquilo acontecesse. Mas de que adiantaria ficar só nas palavras? Era hora de permitir-se mudanças.

Assim, enquanto dormia, livre das amarras da rotina, caminhou pelos corredores intrínsecos do seu ser até que encontrasse a sala onde seu coração repousava. À meia luz, em meio ao frio assolava o ambiente, cheio de desejos e expectativas que nunca seriam seus, ela tomou a gentil joia particular entre as mãos. Beijou-a e chamou as suas memórias, pedindo que elas retirassem em uma ventarola aquilo que não lhe pertencia. Sussurrou, por fim, suas próprias vontades, alegrias e dores – pois estas também são importantes – ao seu coração, para que fosse lembrado do que a fazia vibrar. Finalmente, em um gesto ousado, virou-o de pernas para o ar e o colocou no ninho sem graça que até então repousara.

Com esse gesto, permitiu que a mudança tivesse início. Não pelos outros, mas por si mesma. Algo dentro dela se acendeu e tomou força, virou mar e invadiu tudo. Permitindo que tudo se revirasse, saiu do conforto imposto pelos outros e passou a ver as mesmas coisas sob novos ângulos. Deixou de olhar apenas para a frente e mirou os lados, acima e abaixo, deixando que o colorido do mundo lhe saltasse aos olhos. Deixou de importar-se com que os outros pensassem e quis vivenciar suas próprias experiências, mesmo que doessem. Saiu às ruas e dançou na chuva em vez de fugir, mal se importando com o julgamento daqueles que a viam. Sentiu-se pela primeira vez linda e louca, viva. Era despojada, livre, tão cheia de bons sentimentos que estes se transbordavam, refletindo nos outros. Sua vontade de mudar havia se tornado algo vicioso e viciante, um vírus que se contagiava pelas pessoas ao redor, tirando as vendas auto impostas que as pessoa se colocavam. E o ribombar no coração, aquele que antes só se encontrava no quarto silencioso, agora ressoava em seus ouvidos sempre, dando-lhe ritmo, energia, ação.

Cortou os cabelos, pintou-os ora de roxo, ora de azul ou amarelo. Passou a comer o que lhe dava prazer, sem se preocupar com o peso. Dava bom dia a si mesma, diante do espelho. Beijava as bochechas de estranhos na rua e dava suas próprias roupas para quem sentia frio, sem se importar com a exposição de sua pele. Era nua.

Cantou as canções que sempre quis, adotou um gato e fez poemas sobre a inexistência do nada. Tentou descobrir o sexo dos anjos e brigou com a prepotência dos homens por se acharem únicos no Universo. Tratou mendigos como se fossem reis e imperadores como se fossem reles serviçais. Tentou aprender cada vez mais de si mesma, para assim conhecer o mundo.

Assim, na festa da vida, ela se recusou a ouvir as canções que a rodeavam. E fez do mundo à sua própria música.

Foi embora ser feliz… E caso perguntem, ninguém, nem ela mesma, sabe quando volta.

3 thoughts on “Para ser feliz

Deixe uma resposta