Réquiem para um amor

Estou aqui só para te deixar um recado: hoje resolvi acabar com a minha vida.

Isso mesmo, você ouviu estas palavras corretamente. Não precisa se preocupar, a culpa não é sua. Também não precisará mais lidar comigo e minhas queixas, a premente necessidade de afeto ou a fidelidade ao meu corpo, que para você parecia ser tão difícil. Alegre-se, pois agora poderá chegar a hora em que quiser, beber com os amigos, servir-se de outros gozos e amanhecer só na cama, sem se indignar com o meu ronco ou com o meu braço a lhe procurar nas noites mais frias.

Esta é a última vez que ouvirá minha voz trêmula mencionar seu nome, tomada pela emoção. Ou o som do meu choro sofrido. Ou a força de minha risada… Estas residirão apenas na sua lembrança, caso queira de alguma forma guardá-las. Nem adianta tentar me persuadir; fazer-me voltar à razão, este sentimento dominador e certeiro que fazia apenas as suas vontades, e não as minhas. Para dizer a verdade, prefiro lidar com o teu silêncio, que me dói menos que as constantes palavras ferinas que a mim dirigia, apunhalando meu peito cansado de te amar.

Pode ficar onde está, em breve tudo estará acabado. Suas roupas estão na rua, seus perfumes quebrados, seus CDs riscados. Arranquei as páginas dos teus livros e os queimei naquela panela que sua mãe nos deu, anos atrás. Aquela peça gigante que você, brincando, disse que nunca teria serventia. Pois é, encontrei uma função para aquela peça grotesca que apenas ocupava espaço na cozinha… Espero que fique feliz com isso.

Insisto, fique por aí, longe de mim. Não quero te ver mais antes que eu me vá.  Desejo que meus pulmões voltem a se inflar, o coração a bater e a mente a raciocinar sem que você assim o peça. Quero que o vício em sua pele deixe o meu corpo, o gosto da sua boca que me beijava – e me mordia – suma, por fim. Desejo, em um último gesto, me exorcizar de você e todo o mau querer que trouxeste à minha vida. Deixo-te ir para deixar-me ir, e viver finalmente a paz que pertence somente aos santos, e aos mortos.

Ouço a tua respiração inalterada e sei que nada sente… Pensa em me impedir para que a culpa não o atormente? Tolo, porque se preocupa? Porque no último instante insiste em sentir algo por mim se não o fizeste até agora?

Vamos deixar de palavras vazias. Afirmo que liguei só para me despedir de você, de seu cheiro, do seu falso amor, egoísta e profano… Me despeço do seu sexo e das vezes que me fez chorar de êxtase, em meio ao gozo, tocando com o céu as pontas dos dedos enquanto teu corpo me profanava, querendo obter toda minha alma para si…

Chega! Desligarei agora, despindo-me de tudo que um dia foi seu. Ligarei o som que eu tanto gostava antes de te conhecer no mais alto volume e derramarei lágrimas por tudo aquilo que fui… Antes de, por fim, perecer.

Na água quente, por fim, mergulharei. Lavarei, em meio ao meu sangue o ser submisso e desesperado de amor que um dia eu fui e deixarei que este morra, sem ar, engasgado, tomado pelo silêncio da solidão. Findará assim aquele que um dia você prendeu entre os seus braços em vez de amar, libertando-o.

Quando por fim este pequeno ser, desprovido de vontade, fechar os olhos, deixarei que o novo venha. Alguém que não se lembrará do ser que espezinhou seu coração, que observará com encantamento as próprias mãos, as pernas, as coxas, o sexo recolhido ou a barriga comum, aquela que a gordura se aloja, causando plena sensação de conforto. E este novo ser – eu denominado – não sentirá aversão a si mesmo, ao seu jeito, ou a sua alma. Se abraçará e se respeitará com grandeza, admirando cada imperfeição particular que seu ser aloja, vendo em si o admirável do mundo. Por fim, este eu, que estará livre de ti para sempre, já que deixou que os sentimentos alheios morressem –  permitiu que falecesse aquele que vivia na insignificância do medo das tuas asas em um réquiem cheio de pesar e não-querer – erguerá o rosto em direção ao espelho. Ele, ou eu, iremos sorrir, dentes aparecendo, brilho no olhar e braços abertos, para por fim entender que, para ser completo, precisamos amar aquele que está e estará ao nosso lado durante toda a existência.

Nós mesmos.

Por isso, sem hesitar, digo com toda certeza: não estarei mais pensando em ti, nem sequer lembrarei o teu nome quando, diante da vítrea face do meu novo eu, por fim declarar.

– Eu me amo… E sempre irei me amar.

2 thoughts on “Réquiem para um amor

  1. Eliana

    Muito bom!
    Esse pequeno conto e grande; imenso e sombrio desabafo é algo que toca profundamente.
    Essa pessoa ultrapassou seus limites em nome de um amor não correspondido. Em um relacionamento, quando apenas um lado se doa chega um momento em que mesmo sentindo a dor e o desespero, a melhor coisa a ser feita é se afastar, tentar juntar os cacos que sobraram de sua autoestima, de sua ilusão e partir para algo melhor.
    E a primeira providência (e o que faz possível seguir adiante) é começar a se amar.
    Beijos! Continue…

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