Romance, adeus

Eu deixei que ele fosse embora.

Não dei ouvidos as suas súplicas, pedindo para ficar. Ignorei as promessas de amor eterno e de que seríamos felizes para sempre. Imóvel, fitava o canto da parede, indiferente às suas fantasias que durante tanto tempo me fizeram mal.

Ele tentou me segurar nos braços. Eu me desvencilhei. Empurrei-o quando tentou me seduzir com suas declarações baratas ao pé do meu ouvido e me afastei de seus dedos, que insistiam em subir pelas minhas costas de forma carinhosa e solícita. Pulei, com horror e pena, quando ele se prostrou aos meus pés, dizendo que não conseguiria viver sem mim ao seu lado.

Pedindo ao meu coração, como em um mantra, que o deixasse ir, ignorei-o deliberadamente e comecei a caminhar pelos cômodos da casa, sem deixar que meus olhos se cruzassem com os dele, sem deixar-me envolver pelas suas artimanhas, aquelas que eu mesma ajudara a criar. Despi meu vestido de princesa, quebrei os seus discos que falavam o quão felizes podíamos ser ao lado de alguém, rasguei suas declarações que me juravam felicidade eterna, inclusive os bilhetes sedutores em que ele prometia fazer amor comigo com o mesmo ardor da primeira vez.

Quebrei os espelhos, para não ter de fitar meu rosto tomado pelas sombras das lágrimas não derramadas. Passei pelo armário, retirei da gaveta de costura minha tesoura mais afiada e fui para o quarto. Corpo lançado em direção a cama, rasguei os lençóis que nos cobriram durante as carícias à dois, as molas do colchão saltando para fora como um corpo ferido que se abre e sangra. Sem fôlego, me levantei, abri o guarda-roupa e amontoei as roupas que ele insistira em não tirar dos cabides. Jogo-as na mala aberta, esquecida em um canto. Ele segue meus passos, já sem forças para resistir aos meus ataques, chorando inconsolável, desesperado, mãos na cabeça, mágoas incontidas saltando pelos olhos, gritando porque eu insistia em destruir algo tão belo. Diante de tamanha cena, engoli o lamentar, mantendo o meu rosto impassível e rígido enquanto o coração se desmanchava, em seu próprio processo de luto transformador. Era chegada a hora das mudanças.

Já sabia o que verdadeiramente desejava. Estava ali, tentando invadir o meu coração, pulsando em minhas entranhas, latejando em minha carne. Por mais que tenhamos tentado, o que ele me proporcionava não era mais o suficiente. Nada que pudesse fazer ali, naquele instante, mudaria o resultado. Tudo que havíamos construído eram sonhos, anseios e ilusões… Ele e tudo que representava tinha de ir embora.

Neste momento ele parecera adivinhar o meu próximo ato. Levantou-se de repente e, em um grito convulsivo, lançou-se contra mim. Tentou beijar-me nos lábios e tomar o meu seio entre as mãos para, quem sabe, impedir de me transformar naquilo que desejava. Mas já era tarde demais.

– Já não preciso mais de você, amor – disse para ele, que me fitou com dor e espanto, receoso de partir. Antes que ele tentasse se salvar de qualquer gesto, enfiei as mãos em seu peito e o rasguei, compartilhando de uma só vez as dores do amadurecimento. Trêmula e aliviada, retirei de seu corpo o cofre translúcido que resguardava o seu coração, reflexo do meu, protegendo-nos de toda a realidade. Estava ali a fonte do amor romântico que fora parte do meu ser, embalando-me em um sentimento pueril e fantástico, criado para os inocentes. Aquele que me embalava todas as noites, fazendo-me buscar em relacionamentos imaturos aquilo que nunca teria, ansiar por um felizes para sempre que não cabia em histórias reais.

Fitei pela última vez o meu homem ideal, o vislumbre daquele que eu achava que iria buscar eternamente sem nunca encontrar, a pessoa criada pelos meus conceitos românticos, que existiria sempre em meus pensamentos, e apenas neles. Fitei o seu semblante, as mãos juntas, o rosto em desamparo me pedindo para ficar. Ali, eu me despedi.

Em um gesto, deixei que o seu coração caísse das minhas mãos, o vidro que nos protegera até ali se esfacelando em mil sonhos, ilusões e esperanças que nunca seriam cumpridas. Vi ali o meu romantismo inventado, o homem sempre imaginado, partir-se em mil e um pedaços, tornando-se pó, perdendo-se no vento. De olhos fechados, permiti que o silêncio reinasse por um instante, antes de pegar o seu coração novamente, agora somente meu. Finalmente era dona de mim, sem ilusões, fantasias, príncipes encantados e conceitos pertencentes ao meu passado. Coloquei o portador das emoções em meu peito, sentindo-me plena de amor e dor.

Aquele seria o momento de viver o meu luto, de prantear os meus desejos findos e retirar a poeira dos meus sentidos, a procura dos novos conceitos. Mas, pelo menos, estava pronta e determinada a procurar pela minha vida real. E, finalmente descobrir naquele que eu chamar de ser amado não aquilo que eu desejava, mas sim o que ele realmente era. E ama-lo no momento em que o encontrar, por quanto tempo for possível.

E para os que conheciam a romântica incorrigível que eu fora antes, sonhadora pelos cantos, sempre encontrando defeitos nos homens que a vida me oferecia, terei apenas um fato a comunicar: estou deixando os príncipes de lado. Não sirvo para me sentir querida em meio aos que são feitos de faz de conta. Vivam vocês com seus ideais ilusórios. Vou ser feliz entre os sapos.

Deixe uma resposta